quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Como Julian Casablancas me manteve no jornalismo

Há uns dois meses, sem qualquer vestígio de sarcasmo, Javier me perguntou:

Por que tu fez jornalismo se tu não gosta de falar com as pessoas?

Segundos de silencio.

Essa é uma pergunta que eu deveria ter feito a mim mesma há, sei lá, pelo menos uns 8 anos, e que, no entanto, jamais passou pela minha cabeça. Minto, lembro que quando estava no segundo semestre da faculdade desabafei algo relacionado a isso com um colega, que era mais ou menos meu amigo, já que tínhamos gostos em comum. Recém havíamos entregado um trabalho e comentei com ele que não gostava muito de fazer entrevistas. Ele, que também era meio introvertido, rebateu: “eu também não gosto de entrevistar o cara que vende pipoca no portão, mas pensa, tu não gostaria de entrevistar o Julian Casablancas?”
Sim, obviamente eu gostaria de entrevistar o Julian Casablancas. Mas então era esse o problema? O que eu não gostava era de ter que falar com gente comum, gente que eu não conhecia? Tinha sentido, afinal eu tinha entrado na faculdade de jornalismo para trabalhar na MTV Brasil ou na Rolling Stone (descansem em paz).
Nos estágios eu achava um saco entrevistar a maioria das pessoas que eu tinha que entrevistar. Eram poucas as vezes que eu me sentia realmente cômoda entrevistando alguém. Um dos dois programas de rádio que participei durante dois anos na universidade era um desses momentos. Eu realmente gostava. Entrevistávamos semanalmente personalidades da cultura catarinense, e era divertido porque éramos um grupo e porque era rádio. Rádio é o máximo.
Quando me formei e fui trabalhar como assessora de imprensa também achava um saco ter que ligar pro cliente para pedir uma declaração sobre a greve dos funcionários da rede hoteleira e uma reverenda tortura ligar para as redações para persuadir meus colegas jornalistas a publicar o release que eu tinha mandado. Mas tudo bem, provavelmente eu achava tudo isso horrível porque nenhum deles era o Julian Casablancas. Meu dia já chegaria.
Então finalmente fui trabalhar fazendo o que eu queria. Fui ser repórter de cultura. Era em um jornal de Florianópolis, mas era algo. Se não me engano, uma das primeiras pessoas famosas, e que eu era realmente fã, que entrevistei foi o Duca Leindecker. Por telefone. Eu, que tinha pavor de usar esse aparelho até para pedir pizza, estava ali tentando discar o prefixo de Porto Alegre com os dedos trêmulos. Não lembro de algo ter saído errado, mas lembro do meu nervosismo, da boca seca, do branco no cérebro. E depois do alívio de ver tudo anotado no bloquinho e de começar a melhor parte de todas: escrever. Escrever e depois ler o texto pronto era um prazer quase sexual.
Depois vieram Edu K, Duda Calvin, Andreas Kisser, Madeleine Peyroux, Nasi, Erasmo Carlos, Samuel Rosa, Valeska Popozuda, João Barone, Bumblefoot, Costanza Pascolato (os quatro últimos pessoalmente) e outros que já não mais me lembro, e em menor ou menor grau, a ansiedade sempre estava ali. Às vezes durava dias. Às vezes era difícil dormir. Imagina quando fosse o Julian Casablancas.

Não sei bem como responder isso. Talvez eu tenha me equivocado. Eu gostava de algumas coisas, tipo música, cinema, cultura pop e gostava de escrever e também de falar sobre essas coisas, então pensei que o jornalismo podia ser o caminho. Depois, quando estava no meio do percurso as pessoas começaram a dizer que eu fazia bem o que eu tinha me proposto a fazer e continuaram dizendo até eu finalmente deixar o jornalismo de lado. E eu deixei o jornalismo de lado porque percebi que o lugar que eu queria ocupar não existia. Acho até que existiu em algum momento, mas não existe mais e não vai voltar a existir. E tudo bem, tampouco vou dizer que doeu mudar.

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