quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Ventinho fresco e sanduíche de alface

Eu não costumo falar muito das experiências desastrosas que viví em Buenos Aires, mas como faz tempo que não acontece nada bizarro comigo, comecei a lembrar de algumas coisas que passei e agora elas me parecem muito mais engraçadas que indignantes. Essas duas foram as mais emblemáticas.
Restaurante, Lai Lai, Barrio Chino. Foi nossa terceira opção, numa noite de terça-feira, véspera de feriado, depois de ver que a primeira estava fechada e a segunda, lotada. Entramos e percebemos que a única mesa disponível estava encostada em um freezer horizontal branco. “Não vão ficar abrindo o freezer toda hora”, pensamos, muito ingênuos, e finalmente sentamos ali. A garçonete veio anotar os pedidos, e foi quando o incômodo começou, ainda num nível bastante leve.
“Para mi un chow mein de carne”, disse.
“De qué?” perguntou a moça.
“De carne” disse novamente.
“Cómo?” perguntou outra vez com cara de desentendida.
“DE CARNE!” repeti arregalando os olhos para o Javi, incrédula.
Os argentinos tem isso de às vezes fingir que não entendem o que você fala para fazer você se sentir inferior, mas ter que dizer três vezes uma palavra que tem exatamente a mesma pronúncia em português e espanhol, achei um pouco too much. Mas tudo bem. Pedido finalmente entendido, Javi disse o seu e ela se foi.
Nesse momento abriram o freezer pela primeira das quatro ou cinco vezes ao longo da noite. Era inverno, e cada vez que abriam aquela maldição cheia de massa congelada saía uma fumaça fria com um cheiro estranho diretamente em nossas caras.
Depois de muita espera pelos pedidos, a mesma garçonete aparece com um prato, o meu, dizendo que logo chegava o outro. Não comecei a comer porque, por mais que para o pessoal do Lai Lai aparentemente seja normal uma pessoa comer enquanto outra apenas olha, eu acho isso um pouco incomodo. Esperamos, esperamos mais um pouco, perguntamos pelo prato novamente, esperamos mais. Até que ela apareceu com o prato do Javi. O meu, é claro, já tinha atingido a temperatura dos produtos do freezer e tive que pedir para esquentarem. Obviamente comi chow mein cuspido pela mesera, que em nenhum momento se desculpou. Terminamos e saímos sem deixar gorjeta.

Café do museu Eduardo Sivori, um sábado qualquer. Javi estava com uma vontade incontrolável de comer brownie com sorvete, então aproveitamos para ir ao café do museu Eduardo Sivori, que ele dizia que era lindo e queria me levar fazia tempo. Como era um pouco passado do meio-dia e ainda não havíamos almoçado, me pareceu razoável comer algo salgado primeiro e depois o brownie. Fizemos isso. Não lembro o que Javi pediu, mas eu pedi um sanduíche de frango - cujo preço era muito acima do mercado. Primeiro veio o suco de laranja, que mais parecia uma mostra de um litro de urina de tão quente que estava. Pedimos gelo e nos deram uns pedaços enormes que não entravam no copo. Em seguida chegou meu sanduíche e a comida do Javi. Como não gosto de tomate, puxei duas rodelas disfarçadamente para fora do pão, e quando finalmente mordi percebi algo estranho. Resolvi abrir o sanduíche para dar uma olhada e... eu estava comendo pão com duas folhas de alface. Exatamente, não havia frango no sanduíche de frango. Chamei a garçonete, expliquei que não tinha frango no sanduíche de frango e ela, sem nem um pouquinho de vergonha, disse: “ah, bem que eu vi que tava meio magrinho”. Levou de volta o prato com os pães mordidos e os tomates deixados de lado e voltou dois minutos depois com o mesmo pão mordido, os tomates novamente dentro deles, e uns pedaços de frango jogados meio de qualquer jeito. “Pronto, agora sim”, disse. E se foi, sem se desculpar, obviamente. Terminei de comer o sanduíche com sangue nos olhos e fomos embora sem o brownie. E a garçonete sem gorjeta.

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