quarta-feira, 28 de junho de 2017

Buenos bares pt. 10

Esta seção (que é a única) está cada vez mais escassa por motivos de: não estou mais indo muito a bares, e quando vou, vou aos mesmos que já fui e que já havia escrito algo a respeito. Em seis meses consegui acumular apenas quatro novos, e cá estão.

La Loggia (Federico Lacroze, 2.114, Belgrano) - Não que seja um excelente bar, mas já fui duas vezes no início do ano e ainda nao tinha escrito nada sobre ele. É um bar de cerveja artesanal de fabricação própria e que fica a cinco quadras da minha casa. Isso explica muito o porquê de eu ter ido duas vezes. A cerveja me pareceu boa, apesar de um pouco forte. Para comer tem comidinha normal de boteco.


La taberna de Odín (Honduras, 5.090, Palermo) - Também fui duas vezes antes de escrever. Na primeira vez que fui a ideia era na verdade sair para alguma balada, mas as expectativas eram baixas. Um amigo do Javi de Santa Fé estava na capital, então já que estávamos por Palermo decidimos ir ao “bar de metaleiros”. Mas calma que isso não quer dizer nada além de que toca metal o tempo inteiro e de alguns elementos decorativos (foto abaixo). O ambiente é legal e o forte sao as cervejas artesanais, que vem em pints, jarras ou garrafas. Na segunda vez estávamos saindo de outro bar num domingo e passamos ali para tomar um pint.


El Emergente (Gallo, 333, Abasto) - Em 2015 eu conheci o El Emergente de Almagro, que na época era novo, tinha inaugurado havia poucas semanas. Desta vez, entretanto, uma amiga comentou que uma banda de amigos seus iria tocar no El Emergente de Abasto, o “clássico”. Na falta de algo melhor para fazer, fomos. Não há muito o que dizer do lugar, é o tipo de bar podrão onde muitas bandas fazem o primeiro show de suas vidas. A cerveja é a básica de boteco (Isenbeck e Quilmes) e parece que também tem pizza.

BlueDog (Gorriti, 4.758, Palermo) - Sempre presente em todas as listas de melhores cervejas artesanais de Buenos Aires, o BlueDog já era um desejo há mais um ano. Acabei indo numa noite de domingo com o boy e uma amiga brasileira que estava por aqui. O lugar é praticamente igual a todas as novas cervejarias artesanais que estão abrindo na cidade e não tem tanta variedade como eu esperava, além do preço não ser dos mais amigáveis. Tomei uma de mel, que não tinha sabor a mel, e uma Apa, acompanhando um sanduíche de tapa de asado. Estavam bem.

sábado, 17 de junho de 2017

Por que Buenos Aires?

Eu lembro que quando comecei comentar com as pessoas que estava vindo morar em Buenos Aires eu ouvia quase todos os dias a famigerada questã: “má vai fazê o que lá?”. E isso me incomodava um pouco. Eu não estava vindo para fazer um mestrado em comunicação, nem porque tinha sido contratada pelo Clarín, muito menos porque tinha me apaixonado por um argentino. Eu estava vindo porque queria e inicialmente essa justificativa não parecia suficiente. Quer dizer, para mim era, mas as pessoas não entendiam muito bem, por isso fui bastante planejada e me inscrevi num cursinho tosco de jornalismo de rock que durava dois meses. Passei a ter algo a dizer. Depois de umas semanas aqui, finalmente deixaram de perguntar isso. Porém, contudo, entretanto, a questão foi substituída por outra, que infelizmente será eterna.

“Por que Buenos Aires?”


Quem me pergunta, obviamente, são os próprios argentinos. Porteños, em geral. Especialmente aqueles que nunca foram capazes de prestar um pouquinho de atenção no lugar onde nasceram. Me perguntam isso em todos os lugares. Colegas de trabalho, os dates durante minha solteirice, o cara do plano de saúde, a dermatologista. Basta interagir comigo e descobrir que sou brasileira. É um pouco irritante. Sempre que vou falar com uma pessoa nova rezo a todos os deuses para que ela não se incomode em notar meu sotaque e perguntar de onde eu sou, porque sei que depois disso só piora, principalmente depois que escutam “Balneário Camboriú”. Hoje em dia eu só dou uma risadinha. Mas tenho vontade de dizer “ah tu quer saber mesmo por que Buenos Aires? Então senta aí que vou buscar o mate”. E logo começar a discorrer.

Como assim por que Buenos Aires? Você já caminhou pela cidade olhando para cima, para os lados? Ali pelo microcentro,  por Recoleta, Belgrano, entre Cabildo e Libertador? Já olhou ao redor? Sério que nada te chama atenção? As paredes, os telhados, as janelas, portas, as cores, nada? Em quantos lugares você já foi e viu casas e edifícios tão lindos e bem conservados? Já caminhou pela por Libertador de manhã? Prestou atenção quando passou de carro por Figueroa Alcorta? Quantas vezes você já comeu medialunas em um café com a roupa da noite anterior?
Já comeu uma porção de torta na Pani ou na Maru Botana? Já tomou um trago na Floreria Atlantico? E no Millium? Sabia aqui que tem um bar cujo acesso é como se você estivesse entrando em um metrô nova iorquino? E outro que parece uma farmácia antiga? E que aqui tem algumas livrarias-café incríveis?
Já comeu um hambúrguer no Burger Joint? Um pancho no Gringos? Um choripan na costanera sur? E a cerveja do Antares, já tomou? Em quantos países você pode provar um sorvete tão incrível, além dessa maravilha do ser humano chamada doce de leite? Em que lugar você pode encontrar em qualquer esquina, muitas vezes de madrugada, esse pedacinho do céu chamado alfajor?
Já foi correr nos lagos de Palermo em um dia de semana? Já sentou por ali, na grama, sozinho, só você com seus fones de ouvido? Já subiu no viaduto da faculdade de direito e ficou ali por uns segundos observando os carros passarem por debaixo dele num dia de chuva? Já comeu alguma das coisas estranhas que vendem no barrio chino?
Você provavelmente já visitou o Malba, mas já foi no museu ferroviário? No Evita? Já foi no museu Larreta e passeou pelo seu “jardim secreto”? Já caminhou pelas ruas de San Telmo numa tarde sábado e entrou nas galerias que vendem desde antiguidades até roupa e comida? Já pagou uma pechincha por um casaco incrível de segunda mão que vai te proteger do frio no inverno? Ah sim, aqui tem inverno. Nem todas as pessoas podem experimentar a sensação de ter quatro estações bastante distintas, sabia disso? Você não gosta de livrarias? De teatros? Já viu quantos existem por aqui?
Já percebeu que essa cidade é enorme, mas ao mesmo tempo não é muito difícil e nem muito caro se locomover dentro dela. Já viu o tanto de coisas que se pode fazer aqui? A quantidade de praças e lugares verdes? Já te contaram o quanto é barato e acessível, e ao mesmo tempo competente, o ensino por aqui? Alguma vez você já se deu conta de como cada bairro da cidade tem sua personalidade e beleza própria? Da quantidade de sotaques e idiomas que se pode ouvir em um simples passeio numa tarde de domingo?  


Sim, aqui também existem muitos problemas. Mas sabia que do país de onde eu venho existe uma guerra constante entre traficantes e traficantes, traficantes e polícia, traficantes e civis, polícia e civis, civis e civis, e que todos os dias morre gente inocente por causa disso? Te contaram que a situação política desse país é tão bizarra que eu não poderia sequer resumi-la? Que nem o roteirista mais criativo poderia pensar nas coisas que aconteceram e que seguem acontecendo por lá?  
Por isso Buenos Aires.
Por isso, por coisas que não escrevi para poder terminar esse texto em algum momento.
Por isso e por coisas que eu ainda não conheço, porque Buenos Aires é tão grande e tão incrível que uma vida é muito pouco para aproveitar tudo.

domingo, 4 de junho de 2017

O texto que nunca publiquei

Em janeiro deste ano eu tinha escrito um texto para postar aqui. Era um texto feliz que explicava por que eu me sentia feliz naquele momento e nos últimos meses até então. Nele eu falava sobre como eu me sentia bem até mesmo em acordar cedo para ir trabalhar. Tava ganhando bem? Não tava, mas naquele momento isso era o de menos. Tava tudo perfeito em casa? Tava não, mas isso tampouco era necessário. Fato é que eu tinha chegado a uma sensação que eu e o resto da humanidade vivemos buscando: a sensação de estar bem.
Afinal, não é para chegar aí que fazemos tudo o que fazemos? Compramos roupas, comemos torta de chocolate, tomamos cerveja, mudamos de país, fazemos tatuagens, trocamos de emprego, adotamos um gato, colocamos silicone, fazemos dieta, cortamos o cabelo, limpamos a casa, entramos na academia, arrumamos um namorado, compramos um celular melhor, vamos viajar, tiramos selfies, mostramos tudo no Instagram. Tudo para poder sentir algo bom, se for a longo prazo, melhor. Eu tinha conseguido isso sem fazer várias coisas da lista acima. Tá bom ou quer mais?
Eu não publiquei o texto no mesmo dia que escrevi, não sei exatamente por que. Era a última semana do mês e acho que eu preferia deixar para fevereiro porque eu já tinha postado algumas coisas em janeiro e não sabia se no mês seguinte eu ia conseguir escrever algo, queria garantir uma atualização. Então ficaria para a semana que vem. Acontece que três dias depois eu saí de casa, num desses domingos que não tinham mais aquela cara de domingo. Saí com um skate, tomei um frapuccino maravilhoso e um muffin de chocolate no Starbucks perto de casa. Depois fui caminhando em direção a uma das minhas avenidas favoritas de Buenos Aires, e ali eu caí tentando andar de skate, e o resto da história o prezado leitor já conhece.
Veja bem, eu sei que tu não passa de coincidência e que fraturar o ombro e estar três semanas com uma tipoia no braço direito não é sinônimo de ter sua vida arruinada, só que eu obviamente não me sentia bem naquela semana para publicar um texto que dizia totalmente o contrario. Eu sentia dor, eu não podia usar meu braço direito para nada, eu estava em casa sozinha porque não podia trabalhar, eu sentia calor, eu sequer podia dormir direito. Estava mal humorada, com raiva e triste também.
O problema, estimado leitor, é que desde então eu só senti uma única vez que eu poderia finalmente publicar o texto, mas como não estava segura, deixei assim mesmo. É uma pena, eu acho. Não era um texto excelente, como não é nenhum dos que estão neste blog , mas era algo que eu poderia reler futuramente e que me faria lembrar desse bom momento da minha vida. Hoje, no entanto, eu decidi deletar de vez o maldito arquivo, porque não faz sentido. Ao menos serviu de lição, aquela coisa que todos dizem e ninguém leva a sério: não deixe as coisas para amanhã, porque talvez ele nem chegue. 


PS. Escrevi isso e publiquei logo em seguida, pelas dúvidas. 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

20 impressões em dois anos de Buenos Aires

Há algumas semanas meu amigo Marciano me pediu para escrever um post para seu blog de viagens com cinco coisas que todo brasileiro deveria saber antes de vir a Buenos Aires. Eu gostei da metodologia e resolvi fazer no meu também. Esta semana, para comemorar meus dois anos vivendo na capital porteña, decidi escrever não somente cinco, mas 20 curiosidades a respeito da cidade/país e das pessoas daqui. Lembrando, claro, que é apenas a minha percepção da realidade, que pode não ser a mesma de outro brasileiro - ou de um argentino. Ok? Ok.

1 - Sempre dizem que os brasileiros gostam muito de abraçar e beijar as pessoas ao cumprimentá-las, mas deve ser porque não conhecem os argentinos. Na agência onde eu trabalho eu sou sempre uma das primeiras a chegar e até que não estejam todos, é até difícil me concentrar no trabalho. Todos passam cumprimentando com um beijo. Todos os dias. Ah, e nos colegas que trabalham mais perto tem que dar beijo quando vai embora também.

2 - O mesmo acontece quando você está almoçando: todas as pessoas que entram na cozinha ou refeitório vão te dizer “buen provecho” e você tem que responder “Gracias” quando conseguir engolir o que está mastigando.

3 - A entrada para as baladas são baratas e muitas veces grátis. Ao menos as que eu frequento. Quase nenhuma cobra até certo horário, algumas só precisam que você minta que está na lista e outras exigem uma faladinha com um promoter antes, mas não é nada complicado, eles estão por toda parte, no Facebook também. E se por acaso você tiver que desembolsar uns $150, certamente vão te dar um papéli que vale um drink ou uma cerveja. O que sim vai te arrancar um pedaço é a bebida.

4 - Se entra alguém com preferência no ônibus ou subte e não tem lugar, a própria pessoa ou alguém que está em pé vai dizer “levanta aí pra senhora sentar”. Ah, e crianças têm preferência também. Se entra uma mãe com dois filhos pequenos, melhor ir levantado pros babes sentarem.

5 - Os jornais aqui dão um pouco de vergonha de ser jornalista. O tempo que veículos teoricamente sérios perdem falando de subcelebridades é espantoso e quase tudo é pautado pelas redes sociais. “Cliente de restaurante relata no Facebook abuso sofrido” e pronto, nenhuma perguntinha ao estabelecimento. Sem falar no click bait descarado em todas TODAS as manchetes.

6 - As pessoas estão sempre reclamando que não tem dinheiro, que o salário não chega nem até a metade do mês, que Macri está levando todos à pobreza, mas as fotos das férias são no Marrocos, EUA, México, Brasil ou Colômbia. Aqui simplesmente não existe isso de não viajar (pra bem longe) nas férias.

7 - Aqui você precisa ser muito pobre ou muito mão de vaca (eu sou os dois) para comprar produtos de segunda ou terceira marca no supermercado. Parece que rola um certo orgulho em colocar o macarrão ou o leite mais caro no carrinho.

8 - Por outro lado, e falando principalmente de gente da minha idade, em geral os porteños não se importam tanto com ter carro ou “bens”. Poucos tem veículo próprio e pouquíssimos possuem carteira de motorista. Sem carro, sem carteira. Eles se impressionam quando digo que tenho licença (mesmo sem dirigir há anos e sem nunca ter tido um automóvel). E também não se importam em morar em bairros mais afastados e pouco práticos. Aliás, se você não mora em um desses te consideram “cheto” (riquinho).

9 - Os planos de saúde aqui sao excelentes. Eu sei que o meu está entre os melhores, mas em geral nunca vi ninguém reclamando que teve que esperar quatro meses para conseguir uma consulta num dermatologista, que o plano não cobriu algum procedimento ou que ficou três horas apodrecendo na sala de espera quando precisava atendimento de urgência. Muitos dão medicamentos gratuitos aos pacientes ou conseguem descontos generosos.

10 - Falando em saúde, sabe o exame admissional? Esse que no Brasil te aferem a pressão, te fazem cinco perguntas e pronto? Então, aqui ele inclui eletrocardiograma, exame de urina, de sangue, raio x do tórax e um questionário de três páginas.

11 - Em festas de casamento eles costumam fazer algo que chamam de “carnaval carioca”. Não, não tem nada a ver com o Carnaval do Rio. É só uma baguncinha que contempla o uso de acessórios de plástico, máscaras, perucas e músicas estranhas que definitivamente não são samba.

12 - Os elevadores dos edifícios aqui, em geral, não são automáticos. O prédio tem que ser muito novo para que a porta do elevador abra sozinha. Novo mesmo, tipo menos de 15 anos. Caso contrário é você mesmo que tem que abrir as duas portas.

13 - Uma coisa que eu realmente amo aqui são os banheiros e a presença quase obrigatória de uma banheira. E para impedir que o chão se molhe todo, nada de box. Aqui é mais comum usar a clássica cortina de plástico. Ou seja, você não precisa ser necessariamente rico para ter banheira e nem necessariamente pobre para ter uma cortina de plástico.

14 - Chuveiro elétrico é algo que você não encontra por aqui e não sente a menor saudade. Tudo funciona com gás natural, que é mais barato que eletricidade e te proporciona água quentinha em todas as torneiras o dia inteiro e também faz funcionar as “estufas” (aquecedores).

15 - Falando em estufa, é maravilhosa a preparação que existe aqui para o inverno. Muitos edifícios têm calefação central, dessas que aquecem o piso e o teto, e quando não possuem geralmente tem os aquecedores a gás. Nos bares e restaurantes as estufas funcionam inclusive do lado de fora. Ou seja, está fazendo cinco graus mas você está de boa comendo na calçada, sem casaco.

16 - Aqui eles também comem arroz, não tanto como a gente, mas é mais comum do que se imagina vê-lo como acompanhamento, principalmente quando cozinham em casa. A diferença é modo de fazer. Não sei se é um método utilizado também no Brasil e desconhecido por mim, mas eles cozinham o arroz como se fosse macarrão, até escorrem no final. Fica meio empapado.

17 - Em dois anos aqui já passei por mais situações incômodas em restaurantes que nos últimos dez que morei no Brasil. Coisas como receber o sanduíche de frango sem o frango, ir acompanhada, esperar uma hora e receber só um dos pratos pedidos (o meu, no caso) e ter que comer sozinha até chegar o da outra pessoa, pedir batata frita e receber pure de abobora e não poder trocar porque “vai demorar muito”. Erros acontecem em todo lugar e esse não é o grande problema. Mas acham que em algum dos casos veio um pedido de desculpas? Isso é artigo de luxo aqui em se tratando de atendimento.

18 - Dizem que há uns anos Buenos Aires era dessas cidades que nunca dormem, e eu fico pensando, como assim ERA? Pra mim ela segue sem dormir. A quantidade de lugares abertos 24 horas ainda me impressiona. Só na zona que compreende três quadras da minha casa tem quiosco, restaurante/café, floricultura e um McDonalds que não fecham jamais. Sem falar nos ônibus, que não param nunca.
19 - A pronúncia de algumas palavras em português ou inglês para eles é muito difícil. O
jota, por exemplo, 99% dos argentinos que conheci não consegue pronunciar. Eu sou a Shuli e pronto. Não adianta passar horas tentando fazê-los perceber que existe uma diferença entre “Juli” e “Shuli”, para eles é o mesmo som, o som de “shota”. É bem engraçado.

20 - É difícil ficar entediado em Buenos Aires e essa é uma das grandes razões de eu ter escolhido a cidade para viver. Não precisa muito dinheiro para sair de casa e se divertir, ver algo diferente, comer comida boa e ter experiências lindas todos os dias.

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quinta-feira, 20 de abril de 2017

Os 27

Até pouco tempo eu sentia um certo orgulho da minha condição de humana saudável que raramente ficava doente e nunca foi internada ou frequentou um plantão/pronto socorro depois dos seis ou sete anos de idade. Eu era basicamente indestrutível, pensava. Então chegaram os 27 e com eles todos os problemas possíveis.
Eu que nunca na vida havia quebrado um osso, em menos de dois meses após meu último aniversário fraturei o úmero proximal - ou o ombro, para os leigos. Fazendo o que? Aprendendo a andar de skate, como se tivesse 15. Terminei o domingo no plantão médico. Três semanas com o braço em uma tipóia.
Mal havia terminado de me recuperar totalmente e uma contratura no pescoço me agarrou com vontade no mesmíssimo dia em que uma das piores ressacas de minha existência me deixou na cama um sábado inteiro. A dor durou mais de uma semana e passou com a ajuda antiinflamatórios.
Quando aparentemente meus ossos, nervos e músculos voltaram a funcionar como corresponde, foi a vez do meu rim direito se rebelar contra mim, ao mesmíssimo tempo que um resfriado tinha me transformado em um saco de catarro. Outra visita aos médicos plantonistas, dessa vez à meia-noite. Fui diagnosticada com uma infecção urinária. Já tive isso antes na vida? Evidente que nao. Chegou com os 27.
Enquanto tudo isso ia acontecendo, eu tinha um procedimento cirúrgico marcado para dentro de poucas semanas. Isso porque minha dermatologista disse que uma das milhares de pintas que tenho estava com um aspecto estranho e era melhor removê-la antes que se tornara um melanoma. Assim, em alguns dias lá estava eu pela primeira vez deitada em uma sala de cirurgia de verdade, com uma camisola, uma touca para a cabeça e duas para os pés, enquanto um senhor arrancava cerca de um centímetro de pele do meu peito direito. Cinco pontos no local. Dez dias de curativo.
Faz só quatro meses que tenho 27.

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quinta-feira, 6 de abril de 2017

Xuxa argenta

Na Copa de 2014, quando a Xuxa apareceu torcendo para a Argentina - vestindo a camisa celeste e tudo -, os comentaristas de portal™ desceram a lenha até à quinta geração da família Meneghel, como de costume. Na ocasião ela até tentou explicar a importância que o país sempre teve em sua vida, mas obviamente não conseguiu convencer ninguém de que era absolutamente compreensível ela desfilar por aí com a camiseta da AFA.
Admito que eu tinha apenas uma vaga ideia que a Xuxa havia feito algumas coisas aqui na Argentina em algum momento, mas não sabia exatamente o que era, e estou certíssima de que pouca gente no Brasil tem noção do fenômeno que ela foi e ainda é do lado de cá do rio Uruguai. Só entendi quando vim morar aqui, mas é bem fácil de explicar, na verdade. Lembra quem era Xuxa e o que ela representava no Brasil há 30 anos? Pois aqui era igualzinho. A única diferença é que na Argentina as pessoas continuam amando “la reina de los bajitos”, enquanto no Brasil ela se tornou saco de pancadas virtual.
É meio difícil acreditar que com um espanhol bastante inferior ao meu (em meu primeiro trimestre em Buenos Aires, cabe salientar) uma brasileira fosse a principal estrela infantil da televisão argentina no final da década de 1980 e início da de 1990. Mas é isso. Não existe uma pessoa com mais de 27 anos neste país que não a conheça e que não tenha nada a dizer a seu respeito. Nessa época, Xuxa chegava a Buenos Aires na sexta-feira e em um ou dois dias gravava os programas de toda a semana. Mais tarde, dizem ainda que chegava a passar metade do mes aqui e outra metade no Brasil.  
Agora ela só aparece por aqui num intervalo de anos para participar de algum programa de TV ou de peças publicitárias, mas ainda é notícia quando faz alguma coisa no Brasil. Quando desfila por alguma escola de samba, quando faz aniversário, quando a Sasha aparece em algum portal brasileiro revelando que arruma a própria cama. E o mais impressionante é que quando se dá uma olhadinha nos comentários encontramos um total de zero insultos. Ninguém odeia a Xuxa aqui. Todo mundo acha que ela está maravilhosa para seus 54 anos e todos têm lembranças incríveis de sua infância assistindo ao Xou de Xuxa.  
Depois de tomar conhecimento disso tudo, eu, que já apoiava o uso da camiseta da AFA, não entendo como ela não mora em uma mansão no Barrio Parque, do lado da casa de Susana Giménez.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Nós e uma pizza no cemitério


Não, não é um dejavú, tampouco temos o costume de levar comida aos mortos. Acontece que, por alguma razão, sempre que vamos ao cemitério de la Chacarita temos alguma comida na bolsa. A primeira vez estávamos voltando da casa da mãe do Javi com uma chocotorta. Na segunda (e última até agora) fomos depois de comer pizza na pizzaria que fica em frente. Sobrou dois pedaços. Levamos, claro.
A ida ao cemitério já estava planejada, o que não estava planejado era que sobraria pizza, mas tudo bem, isto jamais seria um impedimento. E por que fomos outra vez ali? Porque quando fomos visitar Gustavo Cerati só vimos sua tumba e nada mais. Faltava ver a de Gardel, a de Pappo e as de outras pessoas importantes para a Argentina, mas não tanto para nós.
O incrível é que desta vez encontramos a tumba de Gardel em menos de 10 minutos, meio por acaso, sem perguntar a ninguém. A má notícia é que teremos que voltar porque não encontramos a de Pappo. Daí não sei, podemos levar um hambúrguer.
O túmulo de Gardel não tem nada a ver com a gavetinha sem graça de Cerati, feita especialmente para que não se transforme em um santuário de loucos fanáticos. A de Gardel, no entanto, é exatamente isso. Desde sua morte lugar o recebeu centenas de placas de metal de fans ou de gente que fez parte da sua vida de alguma maneira. Nas plaquinhas há mensagens de agradecimento e até histórias meio estranhas de fãs.
Quando nos aproximamos havia um señor parado ali, fazendo o sinal da cruz para Gardel assim que notou nossa presença. Nos perguntou se gostávamos do cantor e dissemos que sim. Então nos explicou que nos dias de seu aniversário de vida e de morte os Gardelianos abrem o mausoléu para que as pessoas possam entrar. Nos convidou para participar da próxima, dissemos que sim, sem raciocinar muito no significado daquilo.
Aparentemente são eles, os Gardelianos, quem cuidam e mantém o túmulo em perfeito estado, sempre limpo, com a pintura branca em dia, livre de umidade e com algumas flores.
O senhor ficou ali por mais um minuto e se foi, deixando a gente mais a vontade para ler as mensagens e tecer comentários referentes a elas.
Ainda estamos pensando a respeito do convite.