quarta-feira, 30 de maio de 2018

Vimos as pernas de Steven Wilson


Estaria ficando doente já na sexta-feira? Porque domingo disseram que ele estava doente. Será que o barulho dos foguetes e tambores de 25 de Maio incomodaram muito? Teria acordado cedo por causa disso e não estava com o melhor dos humores? Ou foi a questão da casa de show, que tinha um espaço muito pequeno pro telão e ainda tiveram que usar aquela cortina horrorosa? Porque ele reclamou disso depois da segunda música.
Estive pensando nisso nos últimos dias, como uma monja budista, cheia de empatia e compreensão ao próximo, com o coração aberto para perdoar e jamais julgar alguém porque não fez algo que eu esperava.
Depois de mais de cinco horas em pé na frente do hotel, em um pequeno (grande?) surto fanático-adolescente, Steven Wilson passou reto. Reto. A menos de meio metro de mim. Quase podia sentir seu hálito e ver seus olhos detrás dos oclinhos escuros. Entrou na van e se foi. Só restou o silêncio e os olhares de quem não podia acreditar no que tinha acabado de acontecer. Logo, as perguntas e os insultos mais ou menos respeitosos, porque, afinal de contas, o amamos mais que a nós mesmos.
Às 10h45 eu era a terceira a chegar na porta do hotel. Depois de algumas horas já éramos 10 e não passava muito disso às 16h, quando ele e a banda entraram na van com seu tour manager - que acreditava ser a própria rainha da Inglaterra - para fazer a passagem de som. Por cinco horas fomos todos amigos, compartilhamos os mesmos sentimentos, inclusive a fome. Fomos amigos desde o momento em que Steven apareceu no saguão vestindo bermuda e camiseta, fingindo amavelmente que não via um grupo de pessoas do lado de fora com discos nas mãos, e subindo rapidamente as escadas em direção ao seu quarto. Talvez a primeira pequena decepção daquela sexta-feira fresca.
Pouco tempo depois desceu o baterista Craig Blundell, que saiu pela porta mais ou menos despercebido e 10 minutos depois voltou, também discretamente. Como eu não tinha nada a perder nessa vida e ele nunca ia visualizar mesmo, mandei uma mensagem por Intsagram.

“You didn’t stop to talk with us :(“

A vida às vezes nos prega umas rasteiras, e esse foi o dia oficial das rasteiras da vida, pelo visto. Fato é que em menos de 20 segundos a mensagem tinha sido visualizada e em menos de um minuto chegou a resposta.

“I will come say hi now”

Avisei aos meus novos amigos e em uns minutos Craig estava lá com a gente, assinando discos, tirando fotos, falando sobre como desistiu de dar uma volta na cidade por causa da bagunça de 25 de Maio e explicando que não sabia se Steven ia descer pra falar com a gente, porque estava dando uma entrevista e entre 3h e 4h iam sair pra fazer a passagem de som. Depois foi a vez do tecladista Adam Holzman aparecer, tirar uma foto DA gente e logo com cada um de nós.
Em um golpe de distração, de repente podíamos ver no fundo do saguão, no bar do hotel, sentado em uma cadeira de costas para nós e de frente para o baixista Nick Beggs, Steven Wilson. Já eram três da tarde e agora tínhamos o coração cheio de esperança de que depois de almoçar ele sairia para falar com a gente. Quando se levantaram, no entanto, quem saiu foi Nick Beggs, que foi simpático como os outros dois. Apesar das nossas súplicas, Steven novamente subiu as escadas e desapareceu.
A van branca finalmente estacionou na porta do hotel e com ela um gordo manco que imaginamos ser o tour manager, já que de maneira pouco polida nos mandou sair da porta e não tentar se aproximar de Steven. Disse que se a gente tentasse tirar uma selfie ele não faria o show, o que nos causou um pouco de graça. O gordo saiu e entrou algumas vezes e sempre repetia um discurso parecido. Quando faltava cinco minutos para Steven sair do hotel, mandou até um fã de uns 70 e poucos anos levantar do sofá em que estava no saguão e ficar lá fora em pé com a gente, sem tentar se aproximar de Steven.
Como eu estava sendo adolescente anyway, resolvi resgatar a rebeldía de outrem. Me posicionei muito perto da porta da van, e quando ele estava por entrar estiquei meu braço com o disco e uma caneta. “Please Steven!”. No que o gordo me empurrou com seu braço branco e flácido dizendo “I’ve told you” e recebendo um “asshole” como resposta. A porta da van se fechou, o motor arrancou e ficamos ali, sem acreditar no que tinha acontecido. Ou no que não tinha acontecido. À noite teríamos um show de três horas pela frente e cada um foi para um lado, carregando a incredulidade no semblante.
O cansaço e a frustração tinham arrancado de mim toda a vontade de ir cedo ao show para conseguir um bom lugar, então quando chegamos a fila era quilométrica e as portas estavam por abrir. No fim, acabei conseguindo um lugar razoável e pude ver-lo outra vez de perto. A cada música meus sentimentos se desencontravam mais. Eu o odiava, e com alguma razão, mas como eu poderia não amar Steven Wilson?
Quando acordei no sábado minha vida não tinha mais muito sentido. Fazia seis meses que eu contava os dias para esse 25 de maio.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Buenos bares pt.13

Strange Brewing (Delgado, 658, Colegiales) - Já havíamos passado em frente algumas vezes, até que um sábado, depois de comer sanduíche em uma parrilla de Colegiales, decidimos ir para tomar uma cerveja. Uma só, pois regime de austeridade. Quando se vê o Strange Brewing de fora não dá pra ter muita noção do que é dentro. Tipo, te dá uma ideia, mas ela é equivocada. Não dá pra perceber que o bar é literalmente um galpão de fábrica gigante, e digo literalmente pois é ali mesmo, atrás da barra, que eles fabricam a cerveja. Tanques enormes de inox estão a vista de todos e as paredes exibem fotos de como o lugar era antes e de todo o processo de reforma para que, mais que uma fábrica, ele fosse também um bar meio hipster, com luminárias, mesinhas e poltronas. Por ser um galpão, com direito a buracos no telhado de zinco, se torna difícil instalar um ar condicionado, e os ventiladores gigantes não dão conta do verão porteño, então ainda que eu fosse rica, não ficaria para o segundo copo, pois #transpiração. A variedade de cervejas não é muito grande, mas tomei uma de café que estava muito boa.

Barra feita com livros no Strange Brewing

Trova (Emilio Ravigani, 1710, Palermo) - Trova é um Wine Bar e a única razão pela qual fomos é porque estávamos entediados em meio a um feriadão e decidimos ir ao Mundo Lingo, que ocorre ali todas as sextas-feiras. Não que eu tenha algo contra o vinho, pelo contrário, mas é que não vejo muito sentido em pagar muitíssimo mais caro pelo mesmo vinho que compramos nos supermercados chinos. A variedade de rótulos é razoável e você pode pedir garrafa ou taça, que definitivamente não vale a pena, mas se seu pai está na lista da Forbes e você gosta de provar distintos vinhos, vai fundo.

La Calle (Niceto Vega, 4942, Palermo) - Nos dias que sobraram das férias, já de volta a Buenos Aires, decidimos ir outra vez ao Mundo Lingo, dessa vez numa quarta-feira, no deprimente bar Soria, e foi tão deprimente que 20 minutos depois já estávamos na rua decidindo para que outro bar iríamos. Optamos pelo La Calle. O bar é oculto atrás da pizzaria La Guitarrita de Palermo, mas quando você chega em um certo horário e com certo look, eles já notam que você vai entrar no bar, te abrem a porta e nem precisa dizer nada. Nesse dia estava vazio, só duas mesas ocupadas, e, claro, sentamos na barra porque quase sempre preferimos a barra. Tomamos só um trago cada um, muito bem feito e bem apresentado. Os preços variam normal a alto, a música é ótima e a ambientação também. Provavelmente voltaremos.

Tragos do La Calle

Ceski (Echeverría, 2589, Belgrano) - Numa noite fria de sábado decidimos finalmente conhecer essa cervejaria que abriu há uns meses a algumas quadras de casa. Pedimos duas cervejas - eu pedi uma Honey, pois sou uma #HoneyHunter - e batata frita com cheddar e subimos para a terraza, que estava quase vazia. Se entende, tamanho frio que fazia. A cerveja estava ok, nada extraordinário, e a batata frita era tipo rústica - ou seja, típica batata frita de quem não sabe fazer batata frita. Agora, por favor, parem de abrir cervejarias artesanais em Buenos Aires. Chegamos ao limite, estamos bem com as que temos.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

O crème de la crème de Santiago - Uma semana no Chile pt.2

Na quarta-feira de manhã voltamos a Santiago, dessa vez para ficar. Cinco dias, claro. Alugamos um apartamento pelo AirBnb no centro da cidade, e ainda tenho minhas dúvidas se ficar no centro foi a melhor decisão, mas o apartamento era ótimo e a dona já estava esperando quando chegamos. Nesse momento eu já sentia falta de me estressar com algo, mas o Chile definitivamente não estava contribuindo com isso.
Como narrar todos os nossos passos durante todos esses dias me tomaria umas 10 laudas e muito tempo da minha vida, desta vez vou me ater apenas aos melhores lugares que fomos. E em tópicos.

Cerro Santa Lucía - Localizado exatamente no centro de Santiago, a poucas quadras do nosso apartamento, o Cerro Santa Lucía pode ser uma visita interessante para quem, assim como eu, exagerou na quantidade de dias ao planejar a viagem. Se não é o caso, melhor passar reto. A subida se faz a pé por uma estrada pavimentada, mas não é nada exaustivo. Para chegar a uns pontos mais íngremes - e a uma espécie de torre que fica no topo do morro - é preciso subir umas escadas de pedra de meio duvidosas. O caminho é interessante, tem muito verde, banquinhos para sentar, quiosques e um senhor tocando Beatles com gaita de boca.

Cerro San Cristóbal 
Cerro San Cristóbal - O maior e mais importante cerro de Santiago. Subir caminhando é meio complicado, dizem (e eu acredito), mas tem gente que sobe, principalmente os próprios moradores, que o fazem unicamente para se exercitar. Nós claramente decidimos ir de Funicular, uma mescla de trem com elevador que te leva até a parte mais alta. Além da vista incrível da cidade e da cordilheira, o cerro tem uma estrutura ótima, é basicamente um parque enorme e muito bem cuidado, com muito verde, cafés, quiosques, uma capela, teleférico, banheiros e acesso a wifi grátis em algumas áreas.

Cementerio General de Santiago
Cementerio General de Santiago - Sim, eu sei que tirando o da Recoleta em Buenos Aires - e olhe lá - ninguém costuma adicionar cemitérios aos seus roteiros de viagem, mas eu e Javi gostamos. Não pela morbidez, mas porque os grandes cemitérios são quase um museu a céu aberto. O de Santiago não costuma ser muito visitado por turistas, fica numa zona meio afastada e dentro obviamente não é tão pomposo como o famoso da Recoleta (embora curiosamente esteja situado na comuna de Recoleta, em Santiago), mas a fachada e todo o entorno é bastante impressionante, além de ser muitíssimo maior.

Centro Histórico - Da pra fazer tudo numa tarde: visitar (ou só passar na frente e ficar olhando de fora, como eu fiz) o Palácio La Moneda, onde fica o presidente da república, caminhar algumas quadras até chegar à Plaza de Armas, onde está o Museo Histórico Nacional (que sinceramente só vale a pena aos domingos, quando é grátis) e a catedral metropolitana. Boa parte das ruas do centro são só para pedestres, o que é legal de dia, mas depois das 20h começa a ficar meio turvo e é difícil até achar um lugar para comer. Aliás, quase tudo fecha cedo, um grande problema para mim (que me acho a cosmopolita apesar de ter nascido em Santa Rosa).

Museo de Arte Moderno
Museo Nacional de Bellas Artes/Museo de Arte Moderno - Valem a pena por dois motivos: estão no mesmo prédio, um de costas para o outro, e ficam no barrio Lastarria, que é lindo e vale a pena perder um tempinho caminhando por ali. Ao redor do casarão dos museus está também o parque Florestal, que também é interessante para dar uma voltinha. Fora isso, não espere encontrar exposições fixas com Monets, Munchs ou Manets.

Barrio Bellavista - Bairro de estudantes, hipsters, hippies, drogaditos, jovens com dinheiro e com mais ou menos dinheiro que poderia ser erroneamente comparado ao porteño bairro de Palermo e ser chamado de “boêmio”, mas não se engane. De dia é super lindo e simpático, cheio de cafés, lojinhas, galerias de arte, restaurantes e barzinhos, com um clima tranquilinho, mas à noite, dependendo da rua, o lugar meio que se transforma na sucursal do inferno. Um bar ao lado do outro tocando uma música pior que a outra num volume proibitivo e os promoters quase te arrastando pra dentro. Melhor desviar ou passar correndo.

Siete Negronis - Como boa (e falida) bar hunter, queria muito conhecer o Siete Negronis, que está entre os melhores bares da América Latina. Os tragos são de autor e realmente são bons, mas eu poderia citar pelo menos cinco bares melhores aqui em Buenos Aires, com tragos talvez até mais baratos no menu (o mais módico ali custava U$7,50). E com melhores não me refiro só à qualidade dos drinks, mas também da ambientação e da música.

Blondie - Um dos lugares que mais gostei na cidade e talvez a melhor balada que já fui na vida. A Blondie fica no subsolo de uma galeria escura e horrorosa em uma avenida com pouco movimento à noite, mas basta descer para encontrar um novo mundo. O lugar é enorme, tem quatro pistas: a maior e principal, onde nessa noite tinha um especial Morrisey, uma menor, que tocava só rock e tinha luzes coloridas no chão - e um gato (de verdade) em um dos sofás, uma mais pequena que tocava música eletrônica, e outra do mesmo tamanho só com pop a la Britney e Beyoncé. Se uma música não agradava tanto era só sair em busca de outra, em alguma das pistas o sucesso era garantido.

Dominó - É uma rede de fast food local onde se encontram os clássicos sanduíches chilenos, que são na verdade uma espécie de hot dog com muitas (mas muitas mesmo) variações de recheios e molhos. Foi também onde tomamos pela primeira vez a principal cerveja chilena, a Cristal, que ao contrário da Skol e da Quilmes, é realmente boa. Na segunda vez que fomos comemos a clássica chorrillana, prato típico chileno que não é nada de outro mundo mas é ótimo pois leva batata frita, carne, ovo frito e outros acepipes.

Considerações Finais

Comer bem no Chile é caro. Comer mais ou menos bem também não é lá muito barato. Já disse que cinco dias em Santiago é muito? Se alguém da sua família não está na lista da Forbes, jamais pegue um táxi no Chile. Os donuts da rede Dunkin Donuts são maravilhosos, mas as bebidas têm gosto de água de vala e o atendimento é devagar quase parando. Ir ao mercado público é um teste de resistência. Além de ter apenas restaurantes, os garçons gritam, brigam entre si disputando clientes e só falta que te agarrem e te acorrentem em uma cadeira. Eu acho que não chove no Chile. Todos os parques têm irrigação e há cactus everywhere. O tal do mate com huesillos, bebida típica chilena, é tão doce que faz o nosso caldo de cana parecer amargo. É tipo tomar o suquinho da lata de pêssego em calda.

Clique aqui para ler Uma semana no Chile pt.1

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Um pé no Pacífico - Uma semana no Chile pt.1

Depois de quase três anos morando em Buenos Aires eu meio que já absorvi a cultura local e comecei a sentir falta de ver coisas novas. "Ah, vai se mudar para outro país", diria você.
Mas não. Daqui ninguém me tira.
Tudo o que fiz foi comprar passagens para o Chile. De ida e volta. Com um intervalo de sete dias entre a ida e a volta. E assim foram as minhas férias.
Os argentinos em geral têm pouca ou nenhuma vontade de conhecer o Chile e não vão muito com a cara dos chilenos por questões históricas e também "porque sim". Porém, como brasileira, sempre quis visitar o país. Era um plano que eu tinha desde que cheguei a Buenos Aires, em 2015, e só agora pude concretizar. Meu cônjuge argentino certamente só não reclamou mais da escolha do nosso destino porque assim ao menos poderia falar mal dos chilenos com mais propriedade.
Decidimos passar dois dias em Viña del Mar (que incluía uma visita a Valparaíso) e cinco em Santiago. Dito isso, vamos à primeira constatação: cinco dias em Santiago é um exagero, não façam isso. Tínhamos uma lista não muito extensa de lugares que queríamos ir e sinceramente podíamos ter feito tudo em três dias. Talvez quatro. A segunda constatação é a diferença gritante entre os preços do litoral e da capital. Santiago é cara até para os padrões porteños a que estou acostumada, o que significa que a Juliete do futuro viverá momentos de tensão ao pagar a fatura do cartão de crédito. Mas deixemos os problemas do mês que vem para o mês que vem.
Apesar de o remis (uma espécie de táxi executivo sem nenhum luxo) que contratamos nos ter dado oito tipos diferentes de dor de barriga no longo trajeto até o aeroporto (o motorista era brasileiro, falava o pior espanhol que ouvi na minha vida, não sabia como pegar a estrada a partir do meu bairro, não tinha créditos no celular para consultar o GPS, perdia todos os desvíos para fugir de um protesto que trancou a autopista e quase derreteu um dos pneus em uma fogueira acesa em um cruzamento), depois tudo acabou saindo bastante bem.
Chegamos a tempo em Ezeiza, o voo decolou e aterrissou no horário previsto, e ao colocar os pés em Santiago não tivemos qualquer dificuldade em chegar ao nosso primeiro destino, que era Viña del Mar. A verdade é que quando finalmente deixamos nossas coisas no quarto do hostel, no começo da tarde, estávamos um pouco desconfiados. Não estamos acostumados a que as coisas efetivamente funcionem. Mas era tudo real. Verdade verdadeira. 

Viña del Mar
Viña del Mar é relativamente pequena e nessa época do ano não há muito o que fazer por ali, menos ainda numa segunda-feira, então começamos a caminhar meio sem rumo, passamos por dois museus que estavam fechados, e finalmente chegamos à praia onde vimos o mar do Pacífico pela primeira vez. Tudo muito lindo, mas nem se compara ao litoral brasileiro. À noite jantamos num Mexicano e no dia seguinte pegamos um ônibus até Valparaíso, que não poderia ser mais diferente de Viña del Mar. A cidade é até um pouco hostil no começo, mas confesso que gostei da atmosfera decadente, colorida e desordenada do lugar. Na parte plana quase todas as ruas tem cheiro de mijo, principalmente perto do porto, mas quanto mais próximo dos morros, onde mora quase todo mundo, melhor vai ficando.

Descida do cerro em Valparaíso
Para acessar os cerros da pra pegar um elevador pago ou exercitar os glúteos nas escadas e rampas. A vista de cima vai compensar o esforço anyway. No topo do morro tem de tudo: casas caindo aos pedaços, casas enormes, casas novas, igrejas, edifícios, cafés, fortes, museus, supermercados, restaurantes,  hostels, e dependendo do cerro tem também umas feirinhas com toda a classe de souvenirs para turistas.

Porto de Valparaíso
Para almoçar, decidimos descer para a parte plana e mais afastada do porto onde fomos disputados a tapas pelos restaurantes que caçavam turistas com um desespero admirável. Nos ganhou um que cobrava um valor fixo e razoável por uma entrada (ceviche), prato principal (peixe) e sobremesa (uma gelatina horrorosa). Depois de comer, voltamos ao aconchego de Viña del Mar e fomos a lugares que não visitamos no dia anterior. Antes das seis já estávamos de volta ao hostel, esperando ansiosamente para finalmente ir a Santiago. O que ocorreria só no dia seguinte e é história para outro texto.

Clique para ler a parte 2.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Sobre amar música e odiar shows

Quando ouvi o Steven Wilson dizer em uma entrevista que não gosta de ir a shows, senti seu abraço quentinho. Eu tento colocar a culpa em tudo para não ver ao vivo uma banda que quero muito ver ao vivo: no público, que é um saco (e é um saco ainda maior na Argentina), no preço, na data, no lugar, no clima. Perdi Arcade Fire porque era a única banda que eu queria ver em um festival caríssimo, perdi Phoenix porque foi no fim de semana que meus pais estavam aqui, perdi Queens of the Stone Age por medo de ser pisoteada até a morte. Em geral não é algo que fico pensando muito. Não fui e pronto.
Acho todo o processo de ir a shows uma reverenda tortura. Desde o momento em que abrem as vendas e você precisa ser muito rápido, porque os ingressos podem terminar em poucas horas. Você fica ali aflito na “fila virtual” (a primeira de tantas), e pode ou não ter êxito em sua compra. Se consegue, depois tem que ir buscar a entrada, dependendo do lugar e do dia, ali se encontra a segunda fila.
Mas nem se compara com a fila para entrar no show, seis meses depois. E a partir daí, bom… você só vai parar de sofrer dali a uns dois dias. Se você conseguir um lugar bem na frente porque chegou cedo, vai perdê-lo em breve porque pessoas que chegaram 10 minutos antes de começar vão roubá-lo de você. Ou vão te chutar e te empurrar e despejar cerveja na sua cabeça até sua paciência esgotar, e aí você vai para trás, onde é mais tranquilo, ainda que não dê para ver nada. Ali você apenas escuta o show que você pagou 20% do seu salário para ver.
E as pessoas vão passando “com licença, com licença” com dois copos de Quilmes nas mãos, porque é mais barato comprar logo dois. E como elas são idiotas de qualquer modo, não se importam em tomar o segundo copo já quente e pela metade (porque a outra parte foi derramada enquanto tentavam caminhar no meio do público).
Como não fui a muitos shows, nem na Argentina e nem no Brasil, aprendi com as pessoas daqui que “é assim mesmo”. Show grande é assim mesmo. Você vai para sofrer e é normal não conseguir ver a banda no palco por mais de 15 minutos (no total). “É assim mesmo”, dizem. Te empurram de uma extremidade a outra, te chutam, te molham com cerveja, roubam seu celular, puxam sua roupa e seu cabelo. No outro dia você tem hematomas, dores musculares e uma camiseta que agora só serve para dormir.
Até que tem sentido amar música e odiar shows. 

PS. Este texto foi escrito enquanto me recupero das dores do show do LCD Soundsystem, que tirando a parte ruim, foi maravilhoso.
PS 2. É tudo muito irônico, eu sei, mas o próximo show que irei é justamente do Steven Wilson.

Leer versión en español. 

quinta-feira, 15 de março de 2018

O dia em que não comi shawarma

Saí de casa com 160 pesos e o Javi com 250. Era só para comer um shawarma e tomar algo depois da leitura de contos de Hernán Casciari no La Tangente. Estamos vivendo em regime de austeridade por motivos de férias e do aniversário pitoresco do Javi, portanto só fomos porque ganhamos as entradas de presente e nem a pau comeríamos ali.
Não lembro se já tinha ido antes a uma leitura de contos, provavelmente não, porque “leitura de contos” soa como algo que me vai dar muito sono e vontade de me enforcar. Mas eu tinha escutado umas leituras do Casciari no Youtube e elas definitivamente não me provocaram nenhum dos dois. Sem falar que todos os nossos amigos diziam que ele é um gênio, foi daí inclusive que surgiram as entradas.
Enquanto a gente tava na fila esperando o lugar abrir as portas, eu ficava olhando para a tendinha de shawarma do outro lado da rua, salivando e desejando que aquilo acabasse rápido pra eu poder me esbaldar naquela maravilha da cocina callejera. Mas quando finalmente entramos e o gordo apareceu no palco com seus contos, meio que esqueci a fome e a vontade de comer.
Foi triste quando terminou, se não fosse a cadeira desconfortável eu juro que ficaria ali mais uma hora ou duas. Ele então finalizou dizendo que tinha trazido uns livros pra quem quisesse comprar e que em uns minutos estaria ali no fundo assinando e tirando fotos. Juntamos o dinheiro do shawarma e entre dois compramos o mais recente. Casciari assinou (dedicando 53% do livro a mim), tiramos uma foto horrorosa e fomos pra casa comer sanduíche, mais felizes que nunca debaixo de uma chuva torrencial.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Buenos bares pt.12

The Oldest (Elcano 3410, Colegiales) - Fomos ao The Oldest num domingo, véspera de feriado, com vontade de comer lula (“rabas”) e tomar cerveja. O ambiente é até interessante, luz baixíssima, o que em um primeiro momento me passou uma impressão errada. Achei que era um desses pubs típicos daqui, com finger food e cerveja artesanal, mas na realidade é só um restaurante família (bem família, diga-se de passagem, a última vez que tinha visto tantas crianças/bebês foi no McDonald’s). Tanto é que eles tem um menu diferente pra quem quer só comer uma coisinha enquanto toma cerveja. A comida estava decente, mas como os preços não eram muito amigos e não era exatamente esse clima que a gente buscava, depois de comer e provar uma cerveja cada um, trocamos de bar.

Cullen Henderson (Alvarez Thomas 1106, Colegiales) - Falou em bar novo no meu bairro e meus olhos já brilham. Tínhamos visto uma foto do Cullen Henderson no Instagram no mesmíssimo dia. Checamos o endereço e saímos do The Oldest diretamente para lá. Como era domingo e relativamente cedo, tava praticamente vazio. A cerveja estava boa, assim como a música, e o preço da comida bastante justo. Nesse dia não comemos, mas voltamos algumas semanas depois com esse objetivo acompanhados de alguns amigos. Lamentavelmente a comida não estava muito boa, as batatas (que até hoje não sei se eram fritas ou assadas) estavam meio cruas e sem gosto, assim como a pizza individual.

Growlers (Gurruchaga 1450, Palermo) - Talvez tenha tido uma impressão errada do lugar, porque fomos num domingo às 8 da noite e havia pouca gente, mas a verdade é que gostei bastante de tudo. O ambiente é interessante, tem um terraço lindo com vista para a rua, 20 tipos de cervejas, boa música, preços praticáveis e a batata frita com cheddar era bastante decente. Tem esse clima meio hipster palermitano, as pessoas ficam sentadas no meio fio com seus copos de cerveja sob luzinhas natalinas, ainda que haja bastante lugar dentro. Seguramente voltarei.


Jerome (Chenaut 1878, Las Cañitas) - Fazia muito tempo que queria ir ao Jerome, uma cervejaria com uma pinta mais clássica, tipo Antares, sem esse estilo de mesas altas que estão em TODAS as novas cervejarias artesanais cool da cidade. Queria provar a famosa batata frita, então fomos ao de Las Cañitas num domingo à noite, véspera de feriado. Até às 21h rolava 50% nas pintas de cerveja, então estávamos pedindo uma cada um e umas fritas com cheddar e bacon para dois, quando nos interrompe a garçonete para esclarecer que, na verdade, as batatas para dois eram para três ou quatro, então pedimos a individual. Ela estava certa. Comemos muita batata, gastamos quase nada, mas mesmo assim decidimos dar uma passadinha no Antares ali pertinho, só porque sim. Voltaremos com certeza.