quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Um bar

Eu já conheço alguns bares em Buenos Aires, alguns realmentes muito bons, mas nunca antes havia me sentido assim ao entrar em um deles. Um bar. UM MALDITO BAR. Por que raios eu fiquei três dias em estado de êxtase porque fui a um bar? Já tentarei explicar.
Chama-se Uptown. Abriu há poucos meses na zona que a galera top chama de Palegiales, porque fica no final de Palermo, onde logo começa Colegiales. Colegiales, meu bairro. Quer dizer que o bar além de tudo é perto da minha casa. Desde que eu e Javi vimos uma foto do bar no dia da inauguração, ficamos meio obcecados em conhecê-lo.
Então em um sábado desses, fomos.
A experiência já começa na entrada: é a entrada de um metrô nova-iorquino. Nunca estive em um metrô de Nova York, mas já estive muitas vezes no subte portenho, e a maior diferença me pareceu a limpeza. Obviamente a entrada do bar não é insalubre como uma estação de qualquer metrô do mundo. Então você desce, passa por um corredor escuro com “publicidade” nas paredes e chega às roletas, onde você passa seu cartão do transporte público. Menos mal que ali não precisava, né? Porque eu não tinha créditos na SUBE (e também porque 90% do público topson do bar sequer possui um desses). Então você passa a roleta e entra em um vagão do trem e em seguida tem que sair pela outra porta para finalmente ter acesso ao bar. E que bar.




Iluminação baixa, várias mesinhas redondas com sofás vermelhos, uma barra com poucos bancos altos e uma estante de vidro gigantesca com garrafas de todas as bebidas que existem na terra.
Do lado direito estão os banheiros, com uma antessala cuidadosamente pichada, além de um “estúdio de tatuagem” e uma “farmácia”, que nada mais são do que outros ambientes do bar.
Comer no Uptown é uma tarefa que exige muita dedicação. Se você não for uma celebridade, vai ter que gastar umas boas horas do seu dia tentando reservar uma mesa para alguma noite dali a duas semanas. Se você quiser só tomar uns tragos, pode chegar cedo (às 20h25, cinco minutos antes da porta abrir) sem reserva e conseguirás um banco na barra. Se chegar mais tarde vai poder tomar também, mas em pé em algum canto.
Os drinks são caros, mas admito que já tomei outros mais caros e não tão bons em ambientes não tão lindos como esse (alô Jack The Ripper), então vale a pena. A maioria dos tragos são de autor, ou seja, você só encontra ali, mas também tem alguns clássicos, como o Old Fashioned que tanto ama meu companheiro.
Eu e Javi juntos deixamos ali aproximadamente $1.100, para três drinques cada um e a gorjeta (preço de julio de 2017). E falando em gorjeta, já se sabe que aqui em Buenos Aires esse é um hábito quase obrigatório, mas ainda tem gente (principalmente do Brasil) que não deixa. No Uptwon, no entanto, fica difícil ser mão de vaca. Os bartenders são tão lindos, estilosos, arrumados e atentos e é tão hipnotizante vê-los preparar tua bebida que sem nem se dar conta você já vai estar abrindo a bolsa, tirando umas notas e enfiando no vidro de tips.
Nosso próximo plano é ir para comer, mas como temos uma longa lista de bares para conhecer, e nosso ritmo anda meio devagar, porque também gostamos de baladas, shows e de comer pizza, não sei quando será esse dia.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Millennials do interior

Confesso que sempre que leio algo, geralmente escrito por alguém com mais de 50 anos, sobre os millennials sinto um misto de incredulidade e desejo incontrolável de rir. Digo isso porque eu, nascida em 1989, teoricamente faço parte dessa tão desprezível geração, mas honestamente me identifico muito pouco com os causos relacionados a ela. Principalmente essas historinhas cômicas contadas por gestores que contrataram um funcionário ou estagiário millennial. Segundo eles, nenhum de nós quer trabalhar, não temos responsabilidade, não temos consideração por nada nem por ninguém, não temos comprometimento, somos egoístas, não sabemos o que queremos, somos preguiçosos, nossos pais tem muito dinheiro e nos chamamos Enzo ou Valentina.
Para começar, saibam que esses dois nomes são  posteriores à geração Y, que é cheia de Camilas, Carolinas, Matheus e Thiagos, além de uns nomes estranhos que nossos pais tiraram de novelas da Globo, que é o meu caso. Não consigo pensar em nada menos millennial que ter um nome usado por Claudia Abreu quando interpretava uma princesa em “Que rei sou eu”, mas isso poderia ser uma exceção, então vamos lá.
Eu nasci em uma cidade de 60 mil habitantes no interior do Rio Grande do Sul. Eu só cheguei perto de um McDonalds em 1998, quando estávamos viajando em família para Maringá e minha irmã comprou um McLanche Feliz pra mim. Eu nem sabia o que era. Nessa época eu vivia em uma casa de madeira relativamente grande, com um pátio enorme de grama bem verde, nenhuma das nossas duas TVs tinha cabo, só uma tinha controle remoto, ninguém da família tinha celular, recém começávamos a ouvir CDs, o telefone fixo tinha sido instalado havia pouco e eu mesma arrumava o lanche que levava pro colégio. O Rider do meu pai frequentava minhas nádegas com certa periodicidade e o mais longe que eu já tinha ido era justamente o estado do Paraná.
Tive TV a cabo recém aos 13 anos e internet banda larga em casa aos 16. Até os 17 vivi nessa mesma cidade, que continuava sem ter McDonalds, que recebia somente shows do Jota Quest e Charlie Brown Jr. em feiras agropecuárias, que não tinha shopping e que tinha um único cinema (que na verdade era no centro cívico municipal). Tudo o que eu sabia a respeito do que acontecia de interessante no mundo era, primeiro, graças à revista Capricho e depois graças à internet e à MTV.
O mais millennial que passou em minha vida veio em seguida. Fui estudar em outro estado e meus pais pagavam o aluguel do apartamento onde eu morava com a minha irmã e também nossas faculdades em uma universidade comunitária (ou seja, mais barata que uma privada). Mas infelizmente não tão millennial a ponto de ter uma extensão do cartão de crédito do meu pai para poder comprar o que eu quisesse. Para isso, tive que arrumar meu primeiro emprego, com 17 anos, meio período, não registrado. Eu atendia o telefone de uma clínica odontológica. E também limpava o sangue que desconhecidos cuspiam. Só saí oito meses depois porque a mãe do dentista sempre dizia que eu deixava um montinho de sujeira atrás porta do banheiro, quando na verdade era seu próprio filho que fazia isso. Cansei de ser acusada injustamente e fui muito millennial ao pedir demissão. Uns meses depois, fui trabalhar em uma loja de produtos naturais recém inaugurada em um shopping. Imagino que você saiba o que significa trabalhar em um shopping. Empresárias de primeira viagem, as donas, mãe e filha, gritavam com os funcionários diariamente na frente dos clientes. Depois de três meses e muitos fins de semana perdidos, eu fui novamente muito millennial ao deixar esse trabalho também. Por sorte apareceu um estágio um mês depois, meu primeiro estágio, que alegria! Só que no primeiro dia me colocaram para atender telefone, e nos dias seguintes fiz trabalho administrativo. Não dei um pio. Era muito melhor que limpar sangue com baba ou passar o domingo inteiro aguentando uma louca gritar “É PRA ONTEM!” na minha cara. Fiz muito pouco de jornalismo ali, mas fiquei quase um ano e meio. Desses donos de agência de publicidade que reclamam da inoperância dos “millennials”, quantos já tiveram que catar dente ensanguentado alheio?
Dito isso, favor não confundir millennial com mimado, que é o que claramente as pessoas estão fazendo. Aparentemente tudo isso que reclamam da geração Y tem muito mais a ver com criação do que com nascer em determinada época. E principalmente com o tanto de dinheiro que os pais tem para bancar um filho que abandonou três faculdades e dois estágios porque “não se adaptou”. Ou para presenteá-lo com um ano sabático na África do Sul até ele decidir o que quer fazer da vida.
Quando você nasce e cresce em uma cidade onde os cursos superiores disponíveis se resumem a ciências contábeis, administração e pedagogia, em uma família que não teve muito mais que o suficiente para viver, a mais millennial das suas atitudes vai ser insistir em fazer a faculdade que você realmente quer, em outra cidade. E depois que você consegue terminar essa etapa, não tem viagem para Europa para descansar dos cinco anos de estudo, não tem ano sabático, não tem apartamento pago, não tem mesada, não tem extensão do cartão de crédito da mami. Tem só outra preocupação: arrumar um trabalho para poder pagar a sua parte de um apartamento dividido e a fatura do seu próprio cartão de crédito. Ou para quem sabe um dia, em muitos anos, poder viajar para Europa ou mesmo tirar um ano sabático. E se você não gosta do seu trabalho não há muitas alternativas. Você continua nele e no máximo se permite chorar no banho enquanto espera a ligação de alguma das 23 empresas que você mandou o currículo.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Das coisas que eu acreditava

Quando eu morava em Florianópolis comecei a acreditar piamente que eu não gostava de balada. Odiava a ideia de me enfiar em um lugar onde sempre tinha mais gente que a capacidade total permitida e onde ninguém dançava, porque 1- estava tão lotado que não havia como e 2- a música não contribuia. Isso porque que os DJs se dividiam em duas categorias: os indies xiitas e os que achavam muitíssimo engraçado tocar músicas que a minha tia Cleusa escutava em 1999 enquanto estendia a roupa no varal. Fora isso, havia basicamente apenas dois lugares (que não eram bares/casas de show) que poderiam ser frequentados pelas pessoas que não compactuam com o lifestyle tenho-mechas-californianas-amo-chandon-e-Jurerê-é-muito-top. E os dois lugares eram iguais, com a importante diferença de que o mais clássico tinha somente dois banheiros, e quando digo dois banheiros quero dizer dois vasos. Na outra ao menos dava para fazer as necessidades de maneira digna sem ter que aguentar um bando de hipster de coque e camisa floral esmurrando a porta.
Daí eu mudei de cidade-país, obviamente sempre relutando em pôr meus pés numa dessas. Mas de repente eu estava lá, com 26 anos nas costas, muito louca na pista, amando muito e querendo sair pra dançar uma vez por mês (sim, porque se tivesse 18 ia querer todo fim de semana). A óbvia conclusão é de que eu não gostava das baladas de Florianópolis, por razões ainda mais óbvias.
Eu achava também que o meu destino era viajar pelo mundo. Quando juntei dinheiro e vim para Buenos Aires com uma mochila de 70 litros achei que era isso o que eu queria fazer para sempre. Achava que ia passar uns seis meses aqui e depois ia voltar para a casa dos meus pais, juntar mais dinheiro fazendo qualquer coisa e logo partiria para outro lugar. Hoje eu tenho apenas preguiça de pensar em mochila pesada, hostel sujo e horas de viagem enquanto compro móveis pro meu apartamento com contrato de dois anos.
Eu também estava certíssima de que queria ser repórter da área cultural, e deus do céu, hoje tenho palpitações só de pensar nisso. Trabalhar no fim de semana, entrevistar gente que acha que é grande coisa, ver espetáculos de teatro ruins, escutar música ruim, ler livro ruim, assistir filme ruim, basicamente arruinar tudo o que eu mais gosto de fazer pra ganhar uma miséria. Por que alguém em sã consciência quereria isso? Tudo que eu desejava quando larguei a redação do jornal era um emprego de segunda a sexta, das 9h30 às 18h30, e olha, que maravilha é poder fazer planos para o meu tempo livre, que será meu sempre.

Ah, eu também era dessas que sempre sabiam bem o que queriam.

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quarta-feira, 28 de junho de 2017

Buenos bares pt. 10

Esta seção (que é a única) está cada vez mais escassa por motivos de: não estou mais indo muito a bares, e quando vou, vou aos mesmos que já fui e que já havia escrito algo a respeito. Em seis meses consegui acumular apenas quatro novos, e cá estão.

La Loggia (Federico Lacroze, 2.114, Belgrano) - Não que seja um excelente bar, mas já fui duas vezes no início do ano e ainda nao tinha escrito nada sobre ele. É um bar de cerveja artesanal de fabricação própria e que fica a cinco quadras da minha casa. Isso explica muito o porquê de eu ter ido duas vezes. A cerveja me pareceu boa, apesar de um pouco forte. Para comer tem comidinha normal de boteco. (Fechou)

La taberna de Odín (Honduras, 5.090, Palermo) - Também fui duas vezes antes de escrever. Na primeira vez que fui a ideia era na verdade sair para alguma balada, mas as expectativas eram baixas. Um amigo do Javi de Santa Fé estava na capital, então já que estávamos por Palermo decidimos ir ao “bar de metaleiros”. Mas calma que isso não quer dizer nada além de que toca metal o tempo inteiro e de alguns elementos decorativos (foto abaixo). O ambiente é legal e o forte sao as cervejas artesanais, que vem em pints, jarras ou garrafas. Na segunda vez estávamos saindo de outro bar num domingo e passamos ali para tomar um pint. El Emergente (Gallo, 333, Abasto) - Em 2015 eu conheci o El Emergente de Almagro, que na época era novo, tinha inaugurado havia poucas semanas. Desta vez, entretanto, uma amiga comentou que uma banda de amigos seus iria tocar no El Emergente de Abasto, o “clássico”. Na falta de algo melhor para fazer, fomos. Não há muito o que dizer do lugar, é o tipo de bar podrão onde muitas bandas fazem o primeiro show de suas vidas. A cerveja é a básica de boteco (Isenbeck e Quilmes) e parece que também tem pizza.

BlueDog (Gorriti, 4.758, Palermo) - Sempre presente em todas as listas de melhores cervejas artesanais de Buenos Aires, o BlueDog já era um desejo há mais um ano. Acabei indo numa noite de domingo com o boy e uma amiga brasileira que estava por aqui. O lugar é praticamente igual a todas as novas cervejarias artesanais que estão abrindo na cidade e não tem tanta variedade como eu esperava, além do preço não ser dos mais amigáveis. Tomei uma de mel, que não tinha sabor a mel, e uma Apa, acompanhando um sanduíche de tapa de asado. Estavam bem.

sábado, 17 de junho de 2017

Por que Buenos Aires?

Eu lembro que quando comecei comentar com as pessoas que estava vindo morar em Buenos Aires eu ouvia quase todos os dias a famigerada questã: “má vai fazê o que lá?”. E isso me incomodava um pouco. Eu não estava vindo para fazer um mestrado em comunicação, nem porque tinha sido contratada pelo Clarín, muito menos porque tinha me apaixonado por um argentino. Eu estava vindo porque queria e inicialmente essa justificativa não parecia suficiente. Quer dizer, para mim era, mas as pessoas não entendiam muito bem, por isso fui bastante planejada e me inscrevi num cursinho tosco de jornalismo de rock que durava dois meses. Passei a ter algo a dizer. Depois de umas semanas aqui, finalmente deixaram de perguntar isso. Porém, contudo, entretanto, a questão foi substituída por outra, que infelizmente será eterna.

“Por que Buenos Aires?”


Quem me pergunta, obviamente, são os próprios argentinos. Porteños, em geral. Especialmente aqueles que nunca foram capazes de prestar um pouquinho de atenção no lugar onde nasceram. Me perguntam isso em todos os lugares. Colegas de trabalho, os dates durante minha solteirice, o cara do plano de saúde, a dermatologista. Basta interagir comigo e descobrir que sou brasileira. É um pouco irritante. Sempre que vou falar com uma pessoa nova rezo a todos os deuses para que ela não se incomode em notar meu sotaque e perguntar de onde eu sou, porque sei que depois disso só piora, principalmente depois que escutam “Balneário Camboriú”. Hoje em dia eu só dou uma risadinha. Mas tenho vontade de dizer “ah tu quer saber mesmo por que Buenos Aires? Então senta aí que vou buscar o mate”. E logo começar a discorrer.

Como assim por que Buenos Aires? Você já caminhou pela cidade olhando para cima, para os lados? Ali pelo microcentro,  por Recoleta, Belgrano, entre Cabildo e Libertador? Já olhou ao redor? Sério que nada te chama atenção? As paredes, os telhados, as janelas, portas, as cores, nada? Em quantos lugares você já foi e viu casas e edifícios tão lindos e bem conservados? Já caminhou pela Libertador de manhã? Prestou atenção quando passou de carro por Figueroa Alcorta? Quantas vezes você já comeu medialunas em um café com a roupa da noite anterior?
Já comeu uma porção de torta na Pani ou na Maru Botana? Já tomou um trago na Floreria Atlantico? E no Millium? Sabia aqui que tem um bar cujo acesso é como se você estivesse entrando em um metrô nova iorquino? E outro que parece uma farmácia antiga? E que aqui tem algumas livrarias-café incríveis?
Já comeu um hambúrguer no Burger Joint? Um pancho no Gringos? Um choripan na costanera sur? E a cerveja do Antares, já tomou? Em quantos países você pode provar um sorvete tão incrível, além dessa maravilha do ser humano chamada doce de leite? Em que lugar você pode encontrar em qualquer esquina, muitas vezes de madrugada, esse pedacinho do céu chamado alfajor?
Já foi correr nos lagos de Palermo em um dia de semana? Já sentou por ali, na grama, sozinho, só você com seus fones de ouvido? Já subiu no viaduto da faculdade de direito e ficou ali por uns segundos observando os carros passarem por debaixo dele num dia de chuva? Já comeu alguma das coisas estranhas que vendem no barrio chino?
Você provavelmente já visitou o Malba, mas já foi no museu ferroviário? No Evita? Já foi no museu Larreta e passeou pelo seu “jardim secreto”? Já caminhou pelas ruas de San Telmo numa tarde sábado e entrou nas galerias que vendem desde antiguidades até roupa e comida? Já pagou uma pechincha por um casaco incrível de segunda mão que vai te proteger do frio no inverno? Ah sim, aqui tem inverno. Nem todas as pessoas podem experimentar a sensação de ter quatro estações bastante distintas, sabia disso? Você não gosta de livrarias? De teatros? Já viu quantos existem por aqui?
Já percebeu que essa cidade é enorme, mas ao mesmo tempo não é muito difícil e nem muito caro se locomover dentro dela? Já viu o tanto de coisas que se pode fazer aqui? A quantidade de praças e lugares verdes? Já te contaram o quanto é barato e acessível, e ao mesmo tempo competente, o ensino por aqui? Alguma vez você já se deu conta de como cada bairro da cidade tem sua personalidade e beleza própria? Da quantidade de sotaques e idiomas que se pode ouvir em um simples passeio numa tarde de domingo?  


Sim, aqui também existem muitos problemas. Mas sabia que do país de onde eu venho existe uma guerra constante entre traficantes e traficantes, traficantes e polícia, traficantes e civis, polícia e civis, civis e civis, e que todos os dias morre gente inocente por causa disso? Te contaram que a situação política desse país é tão bizarra que eu não poderia sequer resumi-la? Que nem o roteirista mais criativo poderia pensar nas coisas que aconteceram e que seguem acontecendo por lá?  
Por isso Buenos Aires.
Por isso, por coisas que não escrevi para poder terminar esse texto em algum momento.
Por isso e por coisas que eu ainda não conheço, porque Buenos Aires é tão grande e tão incrível que uma vida é muito pouco para aproveitar tudo.

domingo, 4 de junho de 2017

O texto que nunca publiquei

Em janeiro deste ano eu tinha escrito um texto para postar aqui. Era um texto feliz que explicava por que eu me sentia feliz naquele momento e nos últimos meses até então. Nele eu falava sobre como eu me sentia bem até mesmo em acordar cedo para ir trabalhar. Tava ganhando bem? Não tava, mas naquele momento isso era o de menos. Tava tudo perfeito em casa? Tava não, mas isso tampouco era necessário. Fato é que eu tinha chegado a uma sensação que eu e o resto da humanidade vivemos buscando: a sensação de estar bem.
Afinal, não é para chegar aí que fazemos tudo o que fazemos? Compramos roupas, comemos torta de chocolate, tomamos cerveja, mudamos de país, fazemos tatuagens, trocamos de emprego, adotamos um gato, colocamos silicone, fazemos dieta, cortamos o cabelo, limpamos a casa, entramos na academia, arrumamos um namorado, compramos um celular melhor, vamos viajar, tiramos selfies, mostramos tudo no Instagram. Tudo para poder sentir algo bom, se for a longo prazo, melhor. Eu tinha conseguido isso sem fazer várias coisas da lista acima. Tá bom ou quer mais?
Eu não publiquei o texto no mesmo dia que escrevi, não sei exatamente por que. Era a última semana do mês e acho que eu preferia deixar para fevereiro porque eu já tinha postado algumas coisas em janeiro e não sabia se no mês seguinte eu ia conseguir escrever algo, queria garantir uma atualização. Então ficaria para a semana que vem. Acontece que três dias depois eu saí de casa, num desses domingos que não tinham mais aquela cara de domingo. Saí com um skate, tomei um frapuccino maravilhoso e um muffin de chocolate no Starbucks perto de casa. Depois fui caminhando em direção a uma das minhas avenidas favoritas de Buenos Aires, e ali eu caí tentando andar de skate, e o resto da história o prezado leitor já conhece.
Veja bem, eu sei que tu não passa de coincidência e que fraturar o ombro e estar três semanas com uma tipoia no braço direito não é sinônimo de ter sua vida arruinada, só que eu obviamente não me sentia bem naquela semana para publicar um texto que dizia totalmente o contrario. Eu sentia dor, eu não podia usar meu braço direito para nada, eu estava em casa sozinha porque não podia trabalhar, eu sentia calor, eu sequer podia dormir direito. Estava mal humorada, com raiva e triste também.
O problema, estimado leitor, é que desde então eu só senti uma única vez que eu poderia finalmente publicar o texto, mas como não estava segura, deixei assim mesmo. É uma pena, eu acho. Não era um texto excelente, como não é nenhum dos que estão neste blog , mas era algo que eu poderia reler futuramente e que me faria lembrar desse bom momento da minha vida. Hoje, no entanto, eu decidi deletar de vez o maldito arquivo, porque não faz sentido. Ao menos serviu de lição, aquela coisa que todos dizem e ninguém leva a sério: não deixe as coisas para amanhã, porque talvez ele nem chegue. 


PS. Escrevi isso e publiquei logo em seguida, pelas dúvidas. 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

20 impressões em dois anos de Buenos Aires

Há algumas semanas meu amigo Marciano me pediu para escrever um post para seu blog de viagens com cinco coisas que todo brasileiro deveria saber antes de vir a Buenos Aires. Eu gostei da metodologia e resolvi fazer no meu também. Esta semana, para comemorar meus dois anos vivendo na capital porteña, decidi escrever não somente cinco, mas 20 curiosidades a respeito da cidade/país e das pessoas daqui. Lembrando, claro, que é apenas a minha percepção da realidade, que pode não ser a mesma de outro brasileiro - ou de um argentino. Ok? Ok.

1 - Sempre dizem que os brasileiros gostam muito de abraçar e beijar as pessoas ao cumprimentá-las, mas deve ser porque não conhecem os argentinos. Na agência onde eu trabalho eu sou sempre uma das primeiras a chegar e até que não estejam todos, é até difícil me concentrar no trabalho. Todos passam cumprimentando com um beijo. Todos os dias. Ah, e nos colegas que trabalham mais perto tem que dar beijo quando vai embora também.

2 - O mesmo acontece quando você está almoçando: todas as pessoas que entram na cozinha ou refeitório vão te dizer “buen provecho” e você tem que responder “Gracias” quando conseguir engolir o que está mastigando.

3 - A entrada para as baladas são baratas e muitas veces grátis. Ao menos as que eu frequento. Quase nenhuma cobra até certo horário, algumas só precisam que você minta que está na lista e outras exigem uma faladinha com um promoter antes, mas não é nada complicado, eles estão por toda parte, no Facebook também. E se por acaso você tiver que desembolsar uns $150, certamente vão te dar um papéli que vale um drink ou uma cerveja. O que sim vai te arrancar um pedaço é a bebida.

4 - Se entra alguém com preferência no ônibus ou subte e não tem lugar, a própria pessoa ou alguém que está em pé vai dizer “levanta aí pra senhora sentar”. Ah, e crianças têm preferência também. Se entra uma mãe com dois filhos pequenos, melhor ir levantado pros babes sentarem.

5 - Os jornais aqui dão um pouco de vergonha de ser jornalista. O tempo que veículos teoricamente sérios perdem falando de subcelebridades é espantoso e quase tudo é pautado pelas redes sociais. “Cliente de restaurante relata no Facebook abuso sofrido” e pronto, nenhuma perguntinha ao estabelecimento. Sem falar no click bait descarado em todas TODAS as manchetes.

6 - As pessoas estão sempre reclamando que não tem dinheiro, que o salário não chega nem até a metade do mês, que Macri está levando todos à pobreza, mas as fotos das férias são no Marrocos, EUA, México, Brasil ou Colômbia. Aqui simplesmente não existe isso de não viajar (pra bem longe) nas férias.

7 - Aqui você precisa ser muito pobre ou muito mão de vaca (eu sou os dois) para comprar produtos de segunda ou terceira marca no supermercado. Parece que rola um certo orgulho em colocar o macarrão ou o leite mais caro no carrinho.

8 - Por outro lado, e falando principalmente de gente da minha idade, em geral os porteños não se importam tanto com ter carro ou “bens”. Poucos tem veículo próprio e pouquíssimos possuem carteira de motorista. Sem carro, sem carteira. Eles se impressionam quando digo que tenho licença (mesmo sem dirigir há anos e sem nunca ter tido um automóvel). E também não se importam em morar em bairros mais afastados e pouco práticos. Aliás, se você não mora em um desses te consideram “cheto” (riquinho).

9 - Os planos de saúde aqui sao excelentes. Eu sei que o meu está entre os melhores, mas em geral nunca vi ninguém reclamando que teve que esperar quatro meses para conseguir uma consulta num dermatologista, que o plano não cobriu algum procedimento ou que ficou três horas apodrecendo na sala de espera quando precisava atendimento de urgência. Muitos dão medicamentos gratuitos aos pacientes ou conseguem descontos generosos.

10 - Falando em saúde, sabe o exame admissional? Esse que no Brasil te aferem a pressão, te fazem cinco perguntas e pronto? Então, aqui ele inclui eletrocardiograma, exame de urina, de sangue, raio x do tórax e um questionário de três páginas.

11 - Em festas de casamento eles costumam fazer algo que chamam de “carnaval carioca”. Não, não tem nada a ver com o Carnaval do Rio. É só uma baguncinha que contempla o uso de acessórios de plástico, máscaras, perucas e músicas estranhas que definitivamente não são samba.

12 - Os elevadores dos edifícios aqui, em geral, não são automáticos. O prédio tem que ser muito novo para que a porta do elevador abra sozinha. Novo mesmo, tipo menos de 15 anos. Caso contrário é você mesmo que tem que abrir as duas portas.

13 - Uma coisa que eu realmente amo aqui são os banheiros e a presença quase obrigatória de uma banheira. E para impedir que o chão se molhe todo, nada de box. Aqui é mais comum usar a clássica cortina de plástico. Ou seja, você não precisa ser necessariamente rico para ter banheira e nem necessariamente pobre para ter uma cortina de plástico.

14 - Chuveiro elétrico é algo que você não encontra por aqui e não sente a menor saudade. Tudo funciona com gás natural, que é mais barato que eletricidade e te proporciona água quentinha em todas as torneiras o dia inteiro e também faz funcionar as “estufas” (aquecedores).

15 - Falando em estufa, é maravilhosa a preparação que existe aqui para o inverno. Muitos edifícios têm calefação central, dessas que aquecem o piso e o teto, e quando não possuem geralmente tem os aquecedores a gás. Nos bares e restaurantes as estufas funcionam inclusive do lado de fora. Ou seja, está fazendo cinco graus mas você está de boa comendo na calçada, sem casaco.

16 - Aqui eles também comem arroz, não tanto como a gente, mas é mais comum do que se imagina vê-lo como acompanhamento, principalmente quando cozinham em casa. A diferença é modo de fazer. Não sei se é um método utilizado também no Brasil e desconhecido por mim, mas eles cozinham o arroz como se fosse macarrão, até escorrem no final. Fica meio empapado.

17 - Em dois anos aqui já passei por mais situações incômodas em restaurantes que nos últimos dez que morei no Brasil. Coisas como receber o sanduíche de frango sem o frango, ir acompanhada, esperar uma hora e receber só um dos pratos pedidos (o meu, no caso) e ter que comer sozinha até chegar o da outra pessoa, pedir batata frita e receber pure de abobora e não poder trocar porque “vai demorar muito”. Erros acontecem em todo lugar e esse não é o grande problema. Mas acham que em algum dos casos veio um pedido de desculpas? Isso é artigo de luxo aqui em se tratando de atendimento.

18 - Dizem que há uns anos Buenos Aires era dessas cidades que nunca dormem, e eu fico pensando, como assim ERA? Pra mim ela segue sem dormir. A quantidade de lugares abertos 24 horas ainda me impressiona. Só na zona que compreende três quadras da minha casa tem quiosco, restaurante/café, floricultura e um McDonalds que não fecham jamais. Sem falar nos ônibus, que não param nunca.
19 - A pronúncia de algumas palavras em português ou inglês para eles é muito difícil. O
jota, por exemplo, 99% dos argentinos que conheci não consegue pronunciar. Eu sou a Shuli e pronto. Não adianta passar horas tentando fazê-los perceber que existe uma diferença entre “Juli” e “Shuli”, para eles é o mesmo som, o som de “shota”. É bem engraçado.

20 - É difícil ficar entediado em Buenos Aires e essa é uma das grandes razões de eu ter escolhido a cidade para viver. Não precisa muito dinheiro para sair de casa e se divertir, ver algo diferente, comer comida boa e ter experiências lindas todos os dias.

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