sábado, 20 de julho de 2019

A história de uma época


Agora que já estou meio velha (sorry, eu do futuro, sei que você está mais velha agora) e finalmente entendi que na maioria das vezes sonhos não passam de sonhos, ler esse tipo de livros só me causa nostalgia. Sei que é estranho ter nostalgia de algo que não vivi, mas é o que eu sinto. Porque eu queria ter vivido. Queria, quando tinha 18 anos e achava que isso era bastante provável.
Estación Imposible é um livro-reportagem sobre a revista argentina Expreso Imaginario, que existiu nas décadas 1970 e 1980 e que acabou gerando muitas outras revistas contraculturais do mesmo estilo. Não era uma publicação de rock argentino. Era também de rock argentino. E de rock inglês, americano, e de música brasileira, e de ciência, de literatura, de cinema, de tudo o que não aparecia nas outras revistas. A Expreso Imaginario literalmente mudou a vida de todo mundo que teve contato com ela, de quem trabalhou ali, de quem apareceu em suas páginas e de quem alguma vez na vida teve a oportunidade de ler alguma matéria. Eu não tive, mas 35 anos depois de ter deixado de circular, ela acabou afetando inclusive a minha, só de saber da sua existência, de como era feita, de quem a fazia e do tipo de conteúdo que trazia.
 Uma vez na faculdade tivemos que criar uma revista e produzir reportagens de acordo à temática escolhida por toda a turma. Eu nunca fui muito de me meter em decisões coletivas, prefiro aceitar o que maioria quer e evitar o estresse, mas dessa vez o medo de escolherem uma revista esportiva me deixou impaciente. Quando todos estavam sugerindo temas, esperei por um breve silêncio e disse: “podia ser uma revista de contracultura”. Só a professora e mais uma ou duas pessoas na sala sabiam do que eu estava falando. Pelas caras já me parecia óbvia a negativa à minha ousada sugestão, até que alguém disse: “ou simplesmente de cultura!”, e assim foi. Melhor que nada. De qualquer modo, eu faria uma matéria com a Reino Fungi, outrora uma das bandas mais célebres de Santa Catarina - mesmo se a revista fosse científica.
 Anos mais tarde, quando achei que estava no caminho natural para realizar meu desejo mais profundo, trabalhando como repórter no caderno de cultura de um jornal mediano, sempre tratei de levar coisas meio marginais às suas páginas. Também tentei ser a descobridora da nova melhor banda catarinense de todos os tempos - e quase fui. Culpa das bandas que decidiam acabar meses depois.
 E então, não mais que de repente, terminou a minha jornada recém empreendida. Eu tinha 25 anos, já não cabiam mais em mim as ilusões. O lugar que eu queria ocupar já não existia e os lugares próximos a isso estavam muito bem ocupados por meia dúzia de gente que teve esse mesmo sonho, só que muitos anos antes e com muito mais oportunidades. E essas pessoas provavelmente ficariam desempregadas dentro de pouco.
 Se eu tivesse lido Estación Imposible há 10 anos eu teria tido muito mais material para sonhar, e provavelmente muito mais frustrações quando percebesse que aquele jeito de contar histórias já estava morto e enterrado. Mas lendo agora só me causou isso: uma leve nostalgia. E nenhum arrependimento de ter deixado o jornalismo.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Quatro

Estou aqui olhando pela janela as árvores da rua Nicaragua, estão prestes a perder as folhas outra vez. Calculo que em um mês serão apenas galhos marrons, igualzinho era quando comecei a trabalhar aqui, em junho do ano passado.
 Hoje faz quatro anos que vim para Buenos Aires. A única coisa que não mudou desde então - e que não mudou desde que eu nasci, basicamente - é esse movimento para que amanhã eu esteja melhor que hoje.
Em maio de 2015 eu não podia sonhar que quatro anos mais tarde estaria trabalhando em uma segunda agência de publicidade em Buenos Aires. Que ideia absurda. Eu era só uma jornalista em busca de alguma coisa que fizesse sentido. Na verdade, no dia que eu cheguei eu só pensava em voltar pra minha casa e deixar de ser louca. Agora estou aqui, fazendo gráficos de comparação de métricas enquanto penso pela enésima vez que meus conhecimentos são muito limitados para os meus objetivos. Eu não sei como vou fazer para aprender a usar essas oito ferramentas que acabei de ver que eu tinha que saber usar.
 Depois de quatro anos, já quase não me perguntam mais de onde sou. Já passo praticamente despercebida em meio aos portenhos, só não tanto quanto o jornalista brasileiro que veio passar um feriadão aqui e contou no Twitter que muitos portenhos pensaram que ele era daqui. Mas eu sei mais expressões locais que alguns próprios locais. Juro.
 Eu entendo todas as jergas, todos os xingamentos, todos os sotaques, ainda erro algumas coisas, mas se brasileiros ainda erram o português eu sinto que tenho esse direito. Já sei quais políticos odiar, tanto no âmbito municipal como no federal. Já faço pequenos escândalos quando me atendem muito mal, seja no cabeleireiro ou na clínica de investigações metabólicas que frequento periodicamente devido ao meu hipotireoidismo. Já reclamo do meu salário diretamente ao RH, entro em qualquer tipo de discussão que me pareça interessante e estou pensando em me cadastrar para votar para presidente em algum momento.
Às vezes penso em voltar, mas dura menos que um bocejo.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

A Argentina e os negros

A maneira pejorativa que os argentinos usam a palavra negro nunca, jamais, em nenhuma dimensão da Terra, vai deixar de me incomodar profundamente, mas acho que depois de quatro anos morando aqui eu finalmente entendi como funciona sua visão sobre a questão racial. Tudo começa quando você compreende a relação dos argentinos com os negros: ela praticamente não existe. 
 Os argentinos (e quando digo “os argentinos” estou supondo que você sabe que não falo de 100% da população do país) não conhecem negros. Para eles, há dois tipos: os “negros afro”, que são brasileiros, norte-americanos ou haitianos refugiados, e os “morochos” ou morenos, que são os que têm ascendência indígena e os que no Brasil são classificados como pardos. 
Na Argentina, como sabem, não há tantos “negros afro”, mas há muitos “morochos”. Os argentinos até sabem que aqui também houve escravidão, igualzinho no Brasil, mas não têm muita ideia de por que no Brasil há tantos negros e aqui não. Quase ninguém fala sobre o que aconteceu com a população negra argentina em algum momento da história. (Spoiler: eles foram usados como soldados nas guerras da Independência e do Paraguai, os que não morreram ali, morreram de febre amarela, os que sobreviveram se miscigenaram). 
De volta a questão da pejoratividade, os argentinos costumam usar a palavra negro como sinônimo de algo que está mal, algo sujo e errado. Se um argentino vê uma pessoa jogando lixo no meio da rua, essa pessoa é, adivinhe, um negro, ainda que seja um chinês ou um loiro descendente direto de europeus. Não ajuntou o cocô do cachorro? Negro sujo. Roubou um celular no trem? Negro ladrão. Fez um trabalho mal feito? Negro preguiçoso. Quando você diz que o comentário é racista - e eu já fiz isso algumas vezes - a resposta é sempre a mesma: “mas eu não estou falando da cor da pele”, e a partir de aí se torna bastante difícil fazer com que entendam o significado do que dizem. 
Ano passado, um famoso apresentador de televisão daqui brigou com a filha e os sites de fofoca só falavam nisso. Em um momento chegaram a publicar um áudio de Whatsapp que ele mandou para a filha. O áudio dizia o seguinte: 
"(...) No estudiás, no hiciste un carajo. Vas a esa provincia de mierda (Córdoba) con esa gente de mierda, todos ladrones, delincuentes, negros". 
Foi um escândalo. As manchetes do dia eram “Jorge Rial ataca Córdoba em áudio enviado à filha”. Ninguém nunca, jamais, em nenhum momento, nenhum jornalista, nenhum comentarista de Facebook deu importância ao que realmente importava. A palavra negro ali era somente mais um xingamento proferido à província de Córdoba e foi encarada como tal. Ninguém achou importante chamar atenção ao fato de que ela estava sendo usada como insulto, porque é o normal. Aqui negro é um insulto e ninguém discute essa questão. Nesse dia eu só consegui pensar em como seria se isso tivesse acontecido no Brasil, onde há sim racismo, mas também tem muita gente disposta a combatê-lo. 
É complicado conviver com essa mentalidade, mas não acho que seja impossível mudá-la se realmente tivesse gente que tem voz disposta a fazer isso. Esse tipo de atitude, no caso da Argentina, tem muito mais a ver com ignorância do que com racismo em seu estado puro. Um prova disso é algo com que me deparei um pouco antes do episódio do apresentador de televisão. Uma blogueira de um dos jornais mais importantes do país publicou um texto falando sobre como era ser mãe de uma menina negra na Argentina e todas as bobagens que escutava constantemente. A blogueira era branca e o pai da menina um africano que ela conheceu em uma viagem havia alguns anos. Um comentário de uma leitora me deixou pasma. Dizia algo como “Mas por que essa mãe diz que a criança é negra? É tão linda a menina”. Veja bem, a mãe disse que a criança é negra porque a criança é… negra. A leitora em nenhum momento relacionou a palavra negro à cor da pele da menina, porque ela passou a vida toda escutando que negro é um insulto, sinônimo de algo feio e sujo, então simplesmente não entendia como uma criança tão linda poderia ser chamada de negra, e ainda por cima pela própria mãe. 
Não acho que ignorância justifique certas atitudes, mas me deparar com a “ingenuidade” de uma senhora branca serviu para eu me dar conta de como realmente funciona a cabeça da maioria das pessoas daqui. De maneira geral o que se entende - ou o que eu entendo - é que eles não tem problemas com os que eles chamam de “negros afro”. O maior problema dos argentinos - aqueles que são efetivamente racistas - é justamente tratar de diferenciar “os tipos de negros”. E os negros que eles detestam são os “morochos”, principalmente se são pobres e moram em alguma das villas que muitos sonham em largar uma bomba como solução para acabar com a violência no país.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Séries de uma temporada

As pessoas precisam entender que as séries acabam. E que às vezes elas acabam na primeira temporada. Elas tem que parar de pedir à HBO, à Netflix ou ao raio que o parta para que continuem a gravar séries que estão resolvidas e terminadas com sucesso. Para que uma nova temporada de The End of the Fucking World, por exemplo?
 E PIOR, para que uma nova temporada de the Big Little Lies? Tudo o que a gente precisava estava ali naquele incrível e fascinante último episódio. Eu sei que a série é ótima e deixou todo mundo eufórico, mas ela terminou. Terminou, entende? Não importa o que inventem na segunda temporada, não vai ter sentido e provavelmente vão arruinar tudo. As pessoas precisam aprender que o fim é o fim. Vai buscar outra série pra ver, porra. Só que por favor não veja Russian Doll.
 Eu vi Russian Doll no último feriadão e é definitivamente uma série de uma só temporada. É até bem mediana, mas eu gostei. E sei também que já encheram o saco para que façam a segunda, por tanto não a veja se você é uma dessas pessoas que queriam a continuação de Big Little Lies. Não começa a fazer beiço pra Netflix porque a Netflix não tá nem aí se vai arruinar ou não a série, ela quer teu dinheiro e quer que vocês parem de chorar igual criança com cólica. Então se vocês pedem muito, tcharam, aí está uma nova temporada horrenda e sofrível.
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 Falando em série e em chorar igual criança com cólica, eu fiz isso recientemente. Mais precisamente há 26 dias quando vi o último episódio de How I Met Your Mother, também conhecida como a pior série já gravada na história da televisão mundial. Não importa o quão boa ela tenha sido em todos os outros episódios antes da season finale, porque a season finale simplesmente ESTRAGOU TUDO. Eu desejo a Carter Bays e a Craig Thomas uma vida de muita tristeza, assim como a minha se tornou desde esse día.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Umas coisas desagradáveis que estive pensando

Sobre ter desaprendido a falar meu idioma
Eu não sei se é engraçado ou se é triste, mas a medida que vou perdendo cada vez mais o sotaque brasileiro e errando cada vez menos o espanhol, eu também vou desaprendendo o português. Em dezembro passei uns dias no Brasil com a minha família e misturava palavras dos dois idiomas, esquecia algumas e tinha que pensar uns segundos no que eu queria falar. Além disso, me sentia desconfortável dizendo coisas como “obrigada”, por exemplo. Eu odeio dizer obrigada, eu só quero dizer “gracias” e precisei me esforçar bastante pra nao fazer isso o tempo todo.

Sobre o Instagram e vidas tristes 
Eu nunca fui muito impressionável pelo Instagram. Sigo pouca gente, a grande maioria amigos ou conhecidos, uns poucos músicos, um e outro de decoração e de comida. Nunca admirei instagrammers e muito menos quis ter as suas vidas, inclusive tem umas que me dão pena. Eu provavelmente teria um pouco vergonha se meu trabalho (e minha vida) fosse esse. Eu devo ter pensado nisso por culpa de uma dessas matérias que dizem que o Instagram traz infelicidade (para quem segue essa gente que finge ter uma vida maravilhosa & perfeita). Quando eu vou na aba explorar é pra ver vídeo de gato, foto de bolo, procurar umas receitas, umas ideias de decoração dos alemães, ver como os suecos acomodam suas plantinhas em suas casa iluminadas. Basicamente qualquer coisa que nao seja isso não me interessa.

Sobre não trabalhar com o que sonhava e ser mais feliz assim
Na festa de ano novo que fomos na casa de um amigo conheci uma guria que era jornalista e não trabalhava com jornalismo e o amigo dela que nao era jornalista, mas fazia uns trabalhos grátis numa rádio. Eu disse que eu também era jornalista e não trabalhava mais na área e dias depois fiquei pensando no quão menos estressada e frustrada eu me tornei nesses quase três anos trabalhando com marketing digital em agência. Fazer coisas que tinham algum impacto na vida de uma pessoa (como eu fazia quando era repórter) era sim muito interessante. Mas eu acho mais interessante não me incomodar três vezes por dia, sete dias por semana, porque meu trabalho depende da disposição de terceiros, quartos e quintos. Fora isso, ainda tinha que trabalhar aos domingos, algo que vai totalmente contra a minha religião (a esbórnia). 

Sobre não fazer a menor questão
Sério, alguém acha mesmo que esse negócio de relacionamento aberto pode funcionar para uma mulher hétero? Quantos homens minimamente interessantes podem cruzar o caminho de uma mulher em, sei lá, dois meses? Há quem passe uma vida inteira sem cruzar com um, e, sinceramente, se não for pelo menos um 50% melhor que a média não vale a pena nem lavar o cabelo. Não se trata de ser exigente, se trata de não fazer a menor questão. Entenda que não  me refiro à aparência. 

Sobre não precisar de remédios tarja preta 
Não sei se eu não tinha me dado conta antes ou se as coisas pioraram muito nos últimos dois anos, mas cheguei à conclusão de que faço parte de um grupo pequeno de pessoas que não tomam antidepressivo, comprimido pra dormir, comprimido pra acordar, comprimido pra rir, comprimido pra comer. Uma vez ouvi uma moça dizer que era normal tomar esse tipo de medicamento, que todo mundo tomava. Parece que sou privilegiada (once again). Eu nem insônia tenho mais. Nem aquela insônia de nervosismo, dessas que tu não dorme três dias antes de uma viagem, de uma visita importante, de começar um novo trabalho. Eu também não tenho nenhum problema alimentar. Quer dizer, às vezes eu olho pra minha barriga saliente e minha bunda flácida e penso que poderiam estar melhor, como inclusive já estiveram um dia, penso que talvez menos batata frita poderia ajudar. Dura cinco segundos. Felicidade tem mais a ver com bacon e cheddar do que com bunda dura.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Buenos bares pt.16

Piba (Juramento, 2702, Belgrano) - Uma vez tinha eu passado por esse lugar na simpática avenida Cerviño e me deu vontade de ir. Para minha comodidade, mais ou menos um mês antes da nossa mudança a Belgrano, abriu um Piba a uma quadra do nosso novo apartamento. Na semana seguinte já estávamos lá. O ambiente não é muito animado, o espaço interno é minúsculo, a música até que é boa, mas quase não se escuta, e as pessoas falam sussurrando. Não sei, me senti numa sala de espera. A cerveja não era nada demais, mas o grande destaque são os pinchos: espetinhos de carne, frango ou vegetariano.

 Aldonza (Sucre, 1920, Belgrano) - Quase imperceptível no meio da zona residencial burguesa de Belgrano, em cima de uma simpática quitanda. Aí está o Aldonza. Chegamos ali pela primeira vez depois de passar por outros dois bares, então tomamos só um trago cada um. Apesar da localização, não é um bar chique e carésimo como os novos bares de tragos hype que abriram na cidade nos últimos anos. Tem um clima meio taberna, meio medieval. Gostamos tanto que voltamos para outro trago duas semanas depois. 

Aldonza

 Berlina Vorterix (Federico Lacroze, 3499, Colegiales) - Quando entrei nesse lugar a primeira coisa que pensei foi “esse bar poderia tranquilamente estar em Balneário Camboriú”. Me recordou o finado John Bull (que ainda existe em Floripa), frequentado por gente normal e por roqueiros de Harley Davidson, onde bandas tocavam covers de Dire Straits. É exatamente isso, tirando a cerveja, que é Berlina Patagonia, portanto muito melhor. Obviamente há uma explicação para minha presença nesse lugar: tocava uma banda de Rosário (que não faz covers de Dire Straits nem qualquer outro cover) na qual sou fangirl. Comemos uma picada (a.k.a tábua de frios) horrenda que estava em promoção e dava um pouco de vergonha até de olhar pra ela. 

 La Birrería (Olazábal, 1767, Belgrano) - Certo domingo de muita fome acabamos pedindo hambúrgueres com batata frita por delivery na nova sucursal de La Birrería do barrio Chino, sem nenhuma expectativa. Para nossa surpresa, os hambúrgueres estavam ok e as batatas maravilhosas. Algumas semanas depois decidimos ir pessoalmente numa noite de sábado pra comer mais batata e ver se a cerveja prestava. O lugar é lindo e já queríamos ir desde quando era um restaurante meio classy que acabou fechando há uns meses. Como nada é perfeito, obviamente a cerveja resultou ser uma das piores que já tomei, aguada e sem gosto. Sei que é uma cervejaria, mas dessa vez recomendaria tomar qualquer outra coisa para acompanhar suas batatinhas deliciosas.

 El Escandinavo (Ciudad de La Paz,2322, Belgrano) - Eis que cansados do hype e do sobrepreço da maioria dos bares da cidade, um domingo, véspera de feriado, fomos ao Escandinavo. Trata-se de um clássico pé-sujo metaleiro com cerveja barata e comida razoavelmente boa e que fica a tres quadras da minha casa. É um bar ideal para ir com amigos no fim do mês, quando as contas já não fecham. Não é nada cool, nem tem pretensão de nada, só uns quadros velhos na parede, uns equipamentos de ferro pendurados e umas velas dentro de garrafas. Pedimos uma pizza de muçarela e uma Isenbeck de litro (e logo outra) e ficamos satisfeitos. 

 Docks (Godoy Cruz, 1885, Palermo) - Docks é um desses bares dessa nova leva de bares temáticos con sobrepreço que abriram nos últimos dois anos em Buenos Aires e eu queria conhecer fazia tempo. Na noite do meu aniversário finalmente o escolhi como destino pós-janta. Confesso que tinha melhores expectativas com relação ao lugar. Pelas fotos ele parecia maior e a temática marítima parecia mais aparente, mas na verdade tem só uma ponte transparente com água passando por baixo e um farol enorme. Os tragos não são tão caros como nos bares que fomos ultimamente, como o Boticario e o Parque, mas também não são tão bons como nesses lugares. Isso me surpreendeu um pouco, já que o jefe de barra é superpremiado e até preparou meu último trago da noite. Talvez se eu não conhecesse vários bares com essa mesma proposta meu olhar seria um pouco diferente. Ainda assim acho que vale a pena conhecer. Talvez eu volte.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Diário dos dias que antecederam meu último aniversário na casa dos 20

Sábado, 10/11 - Eu não acredito nessas coisas, mas ele já está aqui. Ele, o inferno astral. E quando o inferno astral se junta ao retorno de saturno não tem conversa. Hoje cruzei a cidade e fui até Villa del Parque buscar um ficus que comprei no Mercado Livre. Chove torrencialmente o dia inteiro, quase deu tudo errado, que era o que eu esperava. Amanhã vou ver MGMT, Lorde, Death Cab For Cutie e Warpaint. Talvez cancelem por causa da chuva. Espero que não. Ou que sim. Não tenho muita vontade de fazer nada ultimamente.


Domingo, 18/11 - A vontade de fazer coisas ainda não voltou ao meu corpo, amanhã é feriado, não fizemos nada nem sexta e nem ontem e acabou a vodka. Hoje fomos comprar mais e o único chino aberto pratica sobrepreço, então compramos dois vinhos brancos que saíram a metade da vodka. No fim nem tomamos porque fomos a um bar metaleiro pé sujo, mas amanhã será um novo dia.


Sexta-feira, 23/11 - Hoje fizeram uma proposta de trabalho pro Javi e segunda-feira ele já vai fazer exame o admissional. Como eu continuo sem muita vontade de sair, decidimos pedir uma pizza de rúcula com tomate seco para comemorar. A pizza veio com tomates frescos. Todo mundo sabe que eu odeio tomate cru.


Domingo, 25/11 -  Ainda me sinto estranha e sem vontade de fazer nada. Só quero comer. Ontem fomos à igreja. Sim, a uma igreja presbiteriana, porque um amigo do Javi que mora em Santa Fé se apresentou ali com seu coro. Foi interessante, era quase meia noite quando eles começaram e a gente já tinha bebido um pouco em casa. No repertório tinha Madonna, Evanescence e Gustavo Cerati. Depois fomos todos para a (nossa) casa novamente e eu quase tive um ataque de pânico porque a nova namorada de um dos nossos amigos não parava de falar e falava muito alto, com muita efusividade. Eu não aguentava mais.


Terça-feira, 27/11 - Ainda não sei o que vou fazer no meu último aniversário na casa dos 20, só sei que não vou reunir meus amigos. Talvez role um after office sexta-feira com os do trabalho e só. No sábado quero almoçar frango frito no KFC e de tarde vou fazer um brownie com doce de leite, chantilly e morango só pra mim e pro Javi. De noite ainda não sei onde vamos jantar. Não quero fazer festinha porque uma amiga brigou com o resto do grupo, um está morando na alemanha e outro tem essa namorada nova que me provoca ataques de pânico.


Quinta-feira, 29/11 - Hoje as coisas deram certo. Será que o inferno astral perdeu força? O ônibus passou em menos de dois minutos, estava vazio, sentei, li umas páginas do meu Cortázar, cheguei no trabalho e já estavam as medialunas das sexta-feiras, excepcionalmente na quinta porque amanhña forçaram um feriado por causa da reunião do G20.


Sexta-feira, 30/11 - É feriado pra mim, mas o Javi teve home office no seu último dia de trabalho. Fui comprar milanesas no açougue pra comer no almoço, fiquei 40 minutos parada esperando minha vez, enquanto senhoras ricas compravam quilos e mais quilos de diferentes tipos de carnes com diferentes tipos de corte. Eu só queria duas milanesas de carne e quando chamaram meu número me informam que não tinha mais, só de frango. Quase tive um troço. Ódio define. Terminamos pedindo milanesa num lugar que vendia uma promoção de um combo com duas Stellas. Quando chegou o delivery (Rappi), trouxe duas Brahmas. Ódio define. Depois de tanto ódio definindo tudo, fomos comer batata frita e tomar cerveja num bar com terraço. Era a minha condição para sair de casa: sentar ao ar livre. Chegamos, sentamos, passaram exatos 30 segundos e começou uma chuva torrencial.  Comemos e tomamos dentro do bar e fomos embora na chuva.


Sábado, 01/12 - Esqueci de comentar que ontem o Javi deixou cair seu celular pela milhonésima vez, e agora não ligava mais. Então, depois de muita pesquisa, hoje encontramos um dealer de celular e tivemos que fazer uma peregrinação em caixas eletrônicos, porque tínhamos que pagar em cash. No fim deu tudo certo e encontramos um youtuber argentino que a gente gosta saindo de um caixa eletrônico.

Domingo, 02/12 - Estava super animada customizando um abajur com fio de sisal e acabou o sisal. Fomos comprar mais no mesmo lugar que eu tinha comprado pela primeira vez e para minha surpresa saía o dobro que comprar ONLINE NO MESMO LUGAR. Entendeu? Voltei pra casa e comprei pela internet e vou buscar outro dia. No mesmo lugar. Pela metade do preço.

Sexta-feira, 07/12 - Muito bem. É amanhã. Essa semana não aconteceu nada demais, além de eu estar um pouco estressada porque agora o Javi acorda no mesmo horário que eu e fica falando comigo e usando o banheiro. Eu sou a própria reencarnação de Lúcifer quando acordo. Adeus, 28 anos.